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O efeito Vinterberg e Haneke

por Orlando Margarido — publicado 20/05/2012 16h51, última modificação 20/05/2012 16h51

Cannes – Agora sim, pode-se dizer, a competição oficial começou para valer. Já disse que gosto muito dos filmes de Jacques Audiard e Christian Mungiu, mas creio que ambos permanecem ainda num território do esperado, ainda que Beyond the Hills, de Mungiu, trabalhe um tema complexo como a possessão e o exorcismo. Mas ‘e uma obra antes de tudo de rigor artístico, formalista se assim se quiser. Os títulos exibidos ontem a noite e hoje pela manha justamente nos oferecem o contrário. São temas, até se pode dizer, confrontados com alguma frequência pelo cinema, mas isso não os torna menos significativos e fortes. Estou falando de The Hunt, do dinamarquês Thomas Vinterberg, e Amour, de Michael Haneke. Ambos, a sua maneira diferente, nos tiram o chão, não tanto pelo assunto, como já frisei, mas como o abordam pela via da dor, da dureza imposta pelo destino. Vinterberg esta de volta a esfera da família, das relações conturbadas entre as pessoas, confrontadas com um tabu, um desvio de comportamento. O professor de uma escola infantil de uma pequena comunidade, tipo querido por todos, é acusado de molestar uma aluna depois que essa faz uma referência de cunho sexual. A diretora então o questiona, e dá início a um processo de difamação que ganha proporções gigantescas, que atinge não só o acusado como seu filho adolescente. Vinterberg não se concentra tanto no aspecto da veracidade ou não da acusação, deixando algumas sugestões pelo caminho, mas sim reflete sobre o poder da emoção irracional que leva a sociedade a exterminar com a vida de alguém. Na cena final, que alguns consideraram reiterativa e desnecessária, une-se a definição corrente de caça que dá título ao filme a uma acepção metafórica. O personagem de Mads Mikkelsen, que vocês conhecem de Fúria de Titãs, é caçado como animal pelo crime de que é acusado. Desde já, um ator postulante ao premio de melhor intérprete.
Se Vinterberg consegue impactar com uma história que parece já um tanto explorada, Haneke une esta e outra razão para surpreender com Amour. Como se lembrou hoje na coletiva de imprensa, não há a violência que costuma incomodar em seus filmes. Mas isso não significa uma visão mais terna da vida, especialmente porque temos aqui a vida na terceira idade, tão rara de se analisar de forma crua, e porque não cruel, como se dá aqui. O grande veterano do cinema francês Jean-Louis Trintignant e a diva Emmanuelle Rivas interpretam o casal de idosos que vivem sós num apartamento e enfrentam uma grave doença dela causada por um derrame, que aos poucos vai se acentuando, enquanto o marido procura organizar o cotidiano. A lentidão da agonia é quebrada de vez em quando com a visita da filha (Isabelle Huppert), que traz a cobrança mas não a colaboração. Haneke compõe esse quadro com um andar exasperante, mas sem perder a condição de realidade, até chegar a uma atitude de limite, desesperada do protagonista. Seus intérpretes octogenários são magníficos e seria bonito ve-los unidos pela Palma, embora o mito de ambos, com Rivas a lembrar sua inesquecível aparição em Hiroshima Mon Amour, deva permanecer mesmo no universo da mitologia. Por falar em Alain Resnais, amanhã temos seu título na competição, Vous N’Avez Enconre Rien Vu, que quer dizer “vocês ainda não viram nada”. Quem sabe é um bom sinal que ainda vem mais coisa boa por aí.
Ato falho e uma complicada turista
Talvez não tenha sido inconsciente ter esquecido de traçar algumas linhas sobre o concorrente americano Lawless, que se chamará Os Infratores no Brasil. Título ruim, embora justificável pela história. O filme é de John Hillcoat, de A Estrada. Ele filma no tempo da lei seca americana a história de três irmãos que burlam a proibição de bebidas alcoólicas produzindo uísque no fundo do quintal numa pequena cidade do interior. Shia LeBouef é o caçula que acaba por se aproximar dos gangsters de Chicago e se dá bem para impressionar a filha de um pastor. Tom Hardy faz o irmão mais velho, durão que protege a todos e se encantará pela beldade Jessica Chastain. Chega então Guy Pearce, investigador que tentará impor a lei por métodos selvagens e o cenário de violência esta formado. Não é que o filme não seja bom, mas já vimos esse embate antes e novos métodos de arrancar sangue não se mostram a melhor forma de dar vida nova ao gênero. Está na competição muito em função de ter um representante americano e só.
Melhor se sai o já cultuado Hong Sangsoo que compete com In Another Country, levando Isabelle Huppert a replicar três vezes seu personagem de uma turista incidental que vai a Coréia em diferentes situações. Seja como diretora, amante ou acompanhante de uma senhora coreana, ela vive o cotidiano de uma praia vazia de turistas e o encontro com um salva-vidas que operará o milagre do encantamento. Como sempre em seus filmes, muitos diálogos de quem parece retomar o cinema de Rohmer desde Hahaha, que venceu o Certain Regar aqui há três anos. Não é um filme com contornos para a Palma, mas gostei de ver, também pela presença sempre irretocável de Huppert.

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