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Cultura

38ª Mostra

O dia dos fanfarrões

por Orlando Margarido — publicado 18/10/2014 12h30
Burroughs e o Falstaff de Welles, nas descobertas e redescobertas preciosas

Fui ver Burroughs imaginando se tratar, claro, de um filme relacionado ao escritor americano, o que para mim já bastava o interesse. A boa surpresa não foi só descobrir um belo documentário na primeira pessoa como também saber ser o projeto de 1983 de Howard Brookner que nunca havia visto. Tinha as referências e recentemente assisti a Jim Jarmusch lembrar do filme, provavelmente em algum documentário também sobre os autores beats e aquele período da literatura americana. Pelos créditos ao final, o antigo filme deve ter sido remasterizado e retornado ao circuito. Jarmusch, em começo de carreira, integrou a equipe técnica fazendo o som e Tom DiCillo, outro nome do cinema independente, dividiu a fotografia com demais profissionais. É esse time que nos permite uma rara e muitas vezes bem humorada apreciação do universo do autor.

Burroughs relembra em entrevista sua vida e a escritura de livros sempre controversos como Junkie, Almoço Nu e Nova Express, e de como fatos pessoais os influenciaram.  Sabemos do garoto obrigado a se distanciar da família conservadora por sentir atração por outros meninos e mais tarde do escritor já maduro que só então assumiu a homossexualidade, tendo um caso com Allen Ginsberg e mais tarde uma longa relação com um seu jovem secretário. Era uma turma que não estava para brincadeiras, como se sabe, ele, Lucien Carr, que dá seu depoimento, Kerouac, parceiro literário a quem influenciou, movida a drogas pesadas.

Mais determinante a aceitar a condição gay foi um episódio trágico ocorrido pouco antes e que revela as excentricidades do personagem. Burroughs matou acidentalmente com uma arma sua segunda mulher, Joan Vollmer, ao mirar e errar o alvo de uma maçã sobre a cabeça dela. Recriavam,claro, a famosa passagem de Guilherme Tell. Mesmo em outros momentos tristes, como a morte do filho, o que temos quase sempre é uma personalidade fora dos registros sociais padrão, um eterno demolidor de regras e desafiador das convenções,que parece todo o tempo rir de nós, galhofeiro, cínico. Assim aproveitou seu tempo, com amizades ainda como de Francis Bacon, quase um fanfarrão dele.

Burroughs poderia ser um tipo literário e foi muitas vezes um em seus próprios romances. Mas lá trás Shakespeare já havia pensado num personagem que também se molda ao interesseiro, boa vida e fanfarrão de nome Falstaff. Ele surge em várias peças do dramaturgo inglês, mas Orson Welles, assim como Verdi, o fez protagonista de seu filme em 1965. Falstaff -- Badaladas a Meia Noite é uma daquelas preciosidades que é bom estar atento em meio a cachoeira de filmes da Mostra. Em ótima cópia, traz o próprio Welles no papel principal, gordo como este requer, e seu envolvimento com o jovem príncipe de Gales, futuro rei Henrique V, mantido prisioneiro. Enquanto um possível resgate não surge, Falstaff bebe na taverna, farreia com prostitutas e comanda sempre na base da boa lábia e invenções picarescas um bando de ladrões que assalta nobres de passagem. O tom é francamente cômico, mas estamos em um drama histórico e também na tragédia, rodeada por guerras e a ascensão ao trono de Henrique IV, um magnífico John Gielgud. Welles filmou na Espanha a impressionam as cenas de batalhas, assim como o elenco, com o luxo de uma aparição pequena de Jeanne Moreau.

A Canção de Minha Mãe

Talvez esses ótimos programas tenham deixado menos interessante o último do dia. Não que A Canção de Minha Mãe não tenha seu valor e o principal talvez seja o de oferecer um pequeno mas tocante painel dos curdos numa Istambul que está se remodelando. O filme abre com o súbito sequestro no passado de um professor enquanto ensina crianças numa escola de um vilarejo, no território curdo. Vemos então seu filho e a mãe no presente tentando se adaptar ao convívio um com o outro na grande cidade turca. Ela se muda, ao que parece pela intensa especulação imobiliária, e vai morar com o filho em seu apartamento. Mas o que quer mesmo é retornar a vila de onde um dia saíram, certa de que todos os seus conhecidos fazem o caminho de volta. No cotidiano solitário, deprime-se, e a questão será o que fazer com esta velha senhora que também vê suas tradições, como a música popular, desaparecerem.