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o belo e o duro

por Orlando Margarido — publicado 27/01/2012 19h40, última modificação 27/01/2012 19h40

Tiradentes – Ontem foi a primeira noite da mostra Aurora com dois filmes programados para a competição. E imagino ter sido proposital da curadoria aproximar dois focos tão díspares, inclusive na qualidade desses documentários. Na sessão inicial tivemos Entorno da Beleza, filme do Distrito Federal dirigido por Dácia Ibiapina. Abre com registros de arquivo dos antigos concursos de miss no país, quando realmente eram programa obrigatório das famílias na televisão. Lá se vê, por exemplo, a baiana Marta Rocha, ícone de beleza da época, famosa por ter perdido o Miss Universo por ingratas duas polegadas. O filme sugere assim que irá traçar um painel desse mundo tão peculiar, e não deixa de fazê-lo a sua maneira. Dácia transfere a disputa aos dias atuais e no cenário das cidades satélites da capital nacional. As garotas dessas comunidades à margem do eixo turístico e político de Brasília sonham com o titulo de Miss DF. O filme as acompanha desde os primeiros passos de seleção e aprendizado com especialistas para se arrumar, desfilar, se portar enfim como uma miss. Ponto de partida interessante que poderia ser melhor explorado na condição e sonhos dessas jovens, muitas negras e com não mais de 20 anos de idade. Arrisca-se alguns depoimentos, mas a diretora prefere que as imagens falem por si, mas que também não são curiosas e instigantes o bastante. Conversando com Luis Carlos Merten, do Estado, ele me diz que o mais interessante é exterior ao filme, a homogeneização das candidatas, brancas ou negras, pelo artifício da maquiagem. Concordo e adiciono que se tem um quadro também de decadência nesse tipo de concurso. Mas isso, mais uma vez, não integra o filme. Numa palavra, faltou empenho.
Melhor estrutura, para usar uma expressão irônica no caso, tem HU, sigla para Hospital Universitário. Pedro Urano e Joana Traub Cseko, a partir de uma tese de mestrado desta, mergulham no esqueleto do que deveria ter sido um dos maiores complexos hospitalares do Rio de Janeiro. Mas tornou-se apenas em parte. Metade do HU funciona como atendimento e escola integrados a Universidade Federal Fluminense, na Ilha do Fundão. A outra metade é um edifício vazio, abandonado por médicos e estudantes depois que ameaçou ruir. A construção megalomaníaca é símbolo do período dos governos militares. Foi planejado ainda no período Getúlio Vargas e só começou a subir nos anos 70. Os diretores unem essas duas faces de um projeto grandioso que faliu, de um lado o cotidiano hospitalar, de outro os andares vazios do prédio condenado. Chegam literalmente a alinhar dois quadros na tela lado a lado e efetivam uma comparação, por vezes forçada, entre uma ferida ou operação de um paciente com a deterioração da estrutura morta. Mas isso não compromete o valor da investigação. O filme faz um interessante diálogo com o mineiro Balança Mas Não Cai, até por seus caminhos contrários, na medida em que o prédio mineiro está em processo de remodelação, e o HU foi implodido em dezembro passado.

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