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Novo velho Malick

por Orlando Margarido — publicado 02/09/2012 16h18, última modificação 02/09/2012 16h18

Veneza – Com o novo filme de Terrence Malick, a Mostra de Cinema esquentou de vez. Ontem a temperatura já havia subido com Paul Thomas Anderson, mais pela coletiva antipática e pouco esclarecedora do que pelo bom trabalho que trouxe, The Master. Melhor assim, pois muitas vezes esses encontros servem a pura badalação e tietagem e não a um debate sólido sobre a obra. No caso de Malick, não se corre este perigo. Todos sabem que o diretor americano é recluso e não vai a lugar nenhum defender seus filmes. Cannes lhe deu a Palma de Ouro por A Arvore da Vida sem contar com ele, ao menos oficialmente, na Riviera Francesa. Não bastasse sua ausência, apenas Olga Kurylenko, a bela ucraniana de Quantum of Solace, compareceu para representar o elenco, que tem ao seu lado como protagonista Ben Affleck e ainda Javier Bardem, no papel de um padre. To The Wonder se chama o filme. Para o maravilhoso, como diz a personagem de Kurylenko ao subir escadas do castelo do Mont Sant Michel, na Normandia. Ela é uma francesa no filme que se apaixona pelo turista americano de Affleck. Decidem ir para os Estados Unidos, onde junto com a filha pequena de um casamento anterior dela se estabelecem num condomínio de casas num interior isolado. Logo a relação se esgarça, e entre uma ida e vinda, o rapaz reencontra um antigo amor (Rachel McAdams). Haverá uma segunda chance, igualmente de difícil condução para o casal.

O filme faz valer o título? Em boa parte sim. A relação hetero e seus infortúnios já foi contada de muitos modos, mas Malick dá sua contribuiçao pessoal com uma narrativa quase sem diálogo, apenas com as vozes dos atores sobrepostas a ação. Tenta buscar com isso um clima mais interiorizado, reflexivo, enquanto capta as imagens idílicas que já apresentava em Arvore da Vida. Sim, é uma espécie de adaptação deste ao conflito romântico, não apenas esse, mas também existencial, religioso como também havia no filme anterior, especialmente pelo personagem de Bardem, o padre em crise vocacional, e também marcado por algum amor no passado. Mas essa semelhança acaba por tambem esvaziar o filme, já que falta aqui um confronto tao poderoso como havia entre pai e filho em Arvore da Vida. Aqui amor e credo cristao andam juntos. Malick tem exercitado esse seu credo e aproveita para associa-lo a passagens de sua vida pessoal, como o casamento com uma francesa no passado. Entrei na exeperiência, especialmente pensando sobre a recorrente insatisfação do ser humano, que é para mim a principal discussão de Malick aqui. Não é facil preencher quase duas horas com essas duvidas, mas ele consegue nos fazer crer na dificuldade de se chegar a tal felicidade pelo cotidiano desse casal, que deveria ser feliz amando, mas não o consegue. Com este partido, o filme dividiu os jornalistas entre vaias e aplausos, o que me parece uma boa medida para uma obra que se opõe de frente a acomodação.

Curioso que o israelense exibido ontem também na competição mergulha de corpo e alma, sem trocadilhos, em outra religião, a judaica, para mostrar que ali não há escolha para a tal felicidade. Fill the Void, de Rama Burshtein, nos leva ao universo dos ortodoxos em Israel, no caso hassidicos, e sua tradição de casamentos arranjados. Quando uma jovem grávida de nove meses morre e o filho sobrevive, sua irmã caçula é considerada para ser a nova esposa do viúvo, que tem outras ofertas de casamento a considerar. Instalam se, então, as duvidas e o conflito entre familias, com direito a opinião do rabino. O drama foca mais a situação de pressão da jovem de dezoito anos. Faltam um pouco mais de suas opiniões e seus sentimentos em relaçao ao caso, mas a visao daquele mundo fechado para a maior parte dos espectadores já é uma proposta interessante da fita.

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