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Novo luto

por Orlando Margarido — publicado 14/04/2012 22h42, última modificação 14/04/2012 22h42

Fui checar meus emails para saber se a suspensão do 5º Festival de Paulínia, anunciada ontem, tivera desdobramentos e me deparei com a notícia da morte de Paulo César Saraceni. É, como devem saber, um dos fundadores do Cinema Novo, núcleo que vai ficando cada vez mais enxuto. Continuam em atividade nomes como Cacá Diegues e Nelson Pereira dos Santos. Saraceni também estava trabalhando. No ano passado, abriu o Festival de Tiradentes com O Gerente e ali foi homenageado. Ja estava com a saúde debilitada, mas ainda teve tempo de concluir o documentário Xaréu -- Memórias do Arraial, exibido no recente É Tudo Verdade. Não vi, mas consegui no final desta semana um dvd da produção do evento e comento em breve. Pelo título, supõe-se um retorno ao seu curta-metragem de estréia em 1960, Arraial do Cabo, definidor, como outros títulos dos companheiros, das premissas do novo cinema que chegava. Realizado com atores não profissionais, com moradores do local, contempla a questão entre pescadores e os operários representantes da industrialização que chegava. O filme traz todos os elementos característicos de uma maior aproximação com a realidade, e a fotografia do mestre Mario Carneiro tratava de colocar a câmera na epiderme dos "atores", luz natural e registro espontâneo. A partir de seu primeiro longa, Porto das Caixas, já se nota a vontade de Saraceni de experimentar, sem ter necessariamente um conceito único de cinema. Isto lhe custou uma carreira irregular, com adaptações que não foram unanimidade, como Capitu e Crônica da Casa Assassinada, mas sempre com uma ciência muito própria do ato de filmar e dos interesses em que a figura humana era´central. Lembro sobre isso O Viajante, trabalho polêmico entre a crítica, mas de interessante e corajoso estudo das reações humanas. O Gerente é um filme rigoroso, clássico na condução e teatralizado. Deixa um testamento de experimentação a altura desse nome fundamental do cinema brasileiro.

Paulínia

Para não deixar de fazer um comentário de Paulínia, que era minha intenção inicial, apenas soubemos hoje pelo colega João Nunes, o crítico do Correio do Povo, de Campinas, que o secretário de Cultural Emerson Alves foi demitido por ter se recusado a participar da fatídica coletiva ontem do prefeito. Como ele não havia sido informado do teor da reunião, decidiu não participar. E por isso saiu. Só para deixar claro, todo o projeto do polo cinematográfico de Paulínia, o que inclui o festival, foi criado na gestão de Alves, pessoa de ótimo diálogo e sempre interessado em melhorar a iniciativa. Sua saída é mais uma cartada infeliz nessa confusão toda. Por outro lado, diretores, produtores e outros profissionais do cinema já começam a se mexer com o intuito de realizar sim, mesmo que a trancos, a edição cancelada do festival. Tomara, para que a coisa não fique na dependência de ventos a favores e contra dos políticos. Veremos, até.

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