Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / Nos corredores da morte

Sem categoria

Nos corredores da morte

por Orlando Margarido — publicado 09/02/2012 16h22, última modificação 09/02/2012 16h22

Berlim -- Amigos, começou! Hoje de manhã tivemos a primeira sessão da competição oficial da Berlinale, mas os jornalistas, ao menos os que anteciparam a chegada por aqui para ontem, já embarcaram numa exibição às 19h30 no horário local. E que desafio! Werner Herzog em seu documentário Death Row, ou corredor da morte, nos leva a uma viagem durissima de acompanhar. Não pela falta de qualidade, pelo contrário. Mas ouvir por três horas setenciados a pena de morte e suas histórias brutais nos joga a um mundo cão de doer. O diretor alemão visita penitenciárias de segurança máxima no Texas, um dos estados a adotar a lei capital, e conversa com os presos, separado por aqueles vidros de proteção que conhecemos dos filmes. Aliás, em um dos diálogos, um dos depoentes diz que a vida ali, a expectativa da ordem que os pode levar a qualquer momento à morte, está bem longe do que se vê nas telas. As histórias são escabrosas, e em geral dizem respeito a assassinatos de cônjuges, brigas entre amigos ou mesmo um planejado homicídio por ciúme de uma gravidez. Herzog logo os avisa, no início, que não está ali para tomar partido e não quer que seus depoimentos tornem-se uma peça de defesa ou condenação. Ouve também advogados e alguns familiares. Feito para TV, o projeto foi exibido aqui na íntegra, por isso a longa duração. Embora num formato documental quadrado, tradicional, com o que chamamos de talking heads, “cabeças falantes”, o filme dá conta do que pretende, uma investigação desse universo lúgubre da violência e seu desdobramento na polêmica da lei da pena de morte.
Coloquei nos plural o título do post nem tanto por Herzog e seus quatro episódios (com cinco personagens, pois em um deles são dois os prisioneiros ouvidos), mas porque hoje de manhã vimos um outro tipo de condenaçâo à morte, aquela em que a aristocracia francesa foi parar na guilhotina. Isso mesmo. Les Adieux a la Reine é um filme ambientado na Revolução Francesa. E você se perguntará, com razão, mais um filme francês sobre o tema. Em parte sim. Mas Benoit Jacquot consegue circundar o mais óbvio do período para se deter nos últimos dias de Maria Antonieta em Versalhes, seus caprichos , seu modo de vida extravagante, sua distância do povo e dos acontecimentos da Bastilha. Diane Kruger, estrela alemãl e internacional, interpreta a rainha. Um de seus caprichos se chama Sidonie (a bela Léa Seydoux), uma das jovens que a serve fielmente. Sidonie cuida da biblioteca e da leitura de sua majestade. É pelos olhos cegos, como diz um conselheiro, dela que acompanharemos o desenrolar dos três dias a partir do 14 de julho de 1789, até a fuga de Maria Antonieta. A história toma muitas liberdades, a começaar por criar essa personagem da “lectrice”, que nunca existiu de acordo com o roteirista na entrevista que se seguiu ao filme. Muito menos se sabe sobre o lesbianismo mais do que insinuado, explicitado mesmo, da rainha para com uma duquesa. O que fica, porém, é um filme sofisticado, de bons diálogos afinados, que faz acreditar ser possível um outro olhar sobre esse período tão explorado no cinema. Não é um filme para se apostar em premios na Berlinale, mas foi um bom começo.

registrado em: