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Não haverá Amanhã

por Orlando Margarido — publicado 26/01/2012 02h15, última modificação 26/01/2012 02h15

Tiradentes -- Caros, não os abandonei daqui de Tiradentes. A ausência do blog se deve a uma programação intensa da mostra e ao material que precisei redigir para a próxima edição da revista, sobre temas até diversos ao cinema, como uma exposição de Modigliani que começa no Rio e depois virá a São Paulo, no Masp. Leiam a partir de sexta. Não bastasse houve a divulgação dos concorrentes da Oscar e, como vocês já devem saber, a absurda morte de Theo Angelopoulos. Deixarei vocês mais um pouco em suspense sobre Tiradentes para comentar essa tragédia, para usar de uma expressão tão recorrente a uma grego. Redigi um obtuário para a edição impressa de Carta, mas quero acrescentar aqui que o cineasta grego, ao lado do português Manoel de Oliveira e do israelense Amos Gitai, era dos meus realizadores preferidos em atividade. Isso é o que talvez mais choca em sua morte. Angelopoulos estava justamente buscando locações para seu novo filme quando foi atropelado por uma moto. Ontem, ao encontrar Avellar, crítico carioca que integra o júri de Tiradentes, e comentar a morte, ele lembrou que na Grécia os motoqueiros sobem na calçada e disputam lugar com pedestres por causa do trânsito! Absurdo que esperemos não chegue a São Paulo. Imagino que o diretor trabalhava para o filme que deveria fechar a trilogia iniciada com Vale dos Lamentos e que prossegui com A Poeira do Tempo. Tive oportunidade de entrevistar Theo duas vezes até hoje, a última vez no Festival de Berlim do ano retrasado, em função de A Poeira do Tempo. Ele chegou a apontar que o terceiro e último filme se chamaria Amanhã. Não achei Poeira... um de seus melhores momentos, mas o filme tem imagens marcantes, metafóricas, como a de Willen Dafoe, aliás no personagem de um cineasta, como Theo criou em vários filmes, entrando numa sala com televisores quebrados em que se via imagens das asas de Ícaro. Eis duas marcas constantes de seu cinema: imagens fortes, inesquecíveis, e a relação compreensiva com os mitos gregos, atualizados de modo tão contundentes para nosso tempo. Como esquecer as crianças saindo da traseira de um caminhão, a sugestão de estupro, numa viagem em busca do pai em Paisagem na Neblina? Ou os corpos pendurados numa cerca alta em O Olhar de Ulisses? É preciso também ler sobre seu cinema para chegar a uma compreensão mais abrangente e em Berlim pedi a ele referências de que tinha estudado, e bem, sua produção. Ele pediu meu endereço e disse que me enviaria dois livros. Disse que bastaria a indicação mas ele insistiu. Os livros chegaram e são primordiais no entendimento do seu cinema. A última visão de seu trabalho integra o filme coletivo Mundo Invisível, produção da Mostra de Cinema de São Paulo, exibido na última edição. É o mesmo projeto em que Leon Cakoff atua para Atom Egoyan. Leon, aliás, não sossegou enquanto não convenceu Theo a vir ao Brasil, o que aconteceu no ano retrasado. Além de retrospectiva, o diretor apresentou uma master class. Há um perfil que fiz dele a partir do encontro em Berlim para a Carta Capital e me lembro de uma frase síntese que agora está no obituário: "estamos condenados a viver de nossas obsessões; não é senão o mesmo filme que faço, o mesmo livro que escrevo". Repetir, nesse caso, é uma qualidade brilhante e que não veremos mais. Não haverá amanhã.

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