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Na reta final!

por Orlando Margarido — publicado 15/02/2013 12h54, última modificação 15/02/2013 12h54

Berlim – Caros, apenas um filme da competição para ver logo mais e a seleção oficial da Berlinale se encerra. Isto porque preferi deixar Elle s'en Va para a sessão oficial de imprensa agora de tarde em vez de adianta-la na projeção noturna habitual da noite anterior. O filme traz a diva Catherine Deneuve a Berlim. A diretora Emanuelle Bercot é roteirista do fraco Polisse, e fiquei um tanto reticente em conhecer esse seu trabalho atrás das câmera. Mas colegas já me disseram que é pelo menos divertido,então vamos lá, fechar a programação completa, já que não perdi nenhum dos concorrentes. Em vez do francês, fui ver ontem no mesmo horário o filme do argentino Santiago Loza, La Paz, diretor respeitado que conheço pouco. Gostei muito do registro rigoroso e seco, sem apelos melodramáticos, que Loza dá ao seu jovem depressivo recém-saído de uma instituição de tratamento e que tenta se encontrar, dar um rumo a vida. A mãe o cerca de carinhos, numa relação ambígua, em que ele não se sente a vontade. Liso, seu nome, prefere a companhia da empregada antiga da casa, uma boliviana tratada pela patroa com aquele traço de condescendência e superioridade, e da avó, que vem a ser a avó na vida real do ator Lisandro Rodriguez. O pai é áspero, chama-o a realidade mas também é pouco compreensivo. Liso procura a paz, e claro, o título tem remissão também a capital da Bolívia. É uma história mínima de recursos dramáticos, mas pungente, como os argentinos fazem tão bem.
Mas de volta a competição, que deixei sem comentários pela correria aqui e meus registros na versão impressa da CartaCapital. E o que vi de bom nessa reta final? São filmes, na média, acima da expectativa, que talvez até mudem a geografia da premiação amanhã. Mas nenhum superou o romeno Child’s Pose, que se mantem para mim o melhor, disputando muito de perto com Gloria, o chileno, e se este levar será pela preferência que Berlim devota aos latino-americanos. Curioso, como já comentei muitas vezes, que ambos são protagonizados por mulheres fortissimas, e eu sinceramente não queria estar no júri para decidir entre uma e outra. Me arrependo de não ter buscado a entrevista com o filme romeno para saber mais da mãe coragem que a protagonista faz. Conversei com Paulina Garcia, a Gloria, e foi um ótimo papo, assim como com a sempre inteligente, e linda, Juliette Binoche. Fiquei impressionado com sua Camille Claudel, diferente da maioria dos meus colegas brasileiros, e continuo achando que ela é a Maria Falconetti de Bruno Dumont, o que ambos disseram ser sempre uma inspiração. Se as mulheres mandam nesta edição, os homens ficaram na maioria em segundo plano. Citei o padre do filme polonês, mas havia me esquecido do jovem idealista do título russo, que termina abandonado pelos fazendeiros que de início o apoiam. Mas o protagonista masculino mais intenso apareceu no filme de Danis Tanovic, An Episode in the Life of an Iron Picker, numa tradução direta, um episódio na vida de um catador de ferro. Nazif é o pai de família que tenta sustentar a mulher grávida e as duas filhas buscando sucata para vender na periferia uma grande cidade da Bósnia-Hezergovínia. Foi soldado na guerra que esfacelou a região mas agora não encontra mais trabalho. De repente sua mulher adoece, perde o filho e precisa de uma cirurgia urgente mas não tem seguro saúde nem dinheiro para banca-la. A tensão se impõe entre o casal e o hospital que se nega a fazer a operação. Tanovic é enxuto em seu retrato de um país que esqueceu de sua classe menos assistida, dos que ficaram a deriva findo o conflito. Entre idas e vindas a cidade, a imagem apocalíptica de uma grande usina siderúrgica da conta da grandiosidade do progresso em contraste com a pouca valia da vida. É um belo filme, mais forte ainda por trabalhar com a atuação da própria família que passou pelo incidente. Mais político impossível para uma Berlinale que costuma saudar o engajamento. E Tanovic se recupera depois de filmes pouco inspirados e desde o sucesso de Terra de Ninguém.
Menos ambicioso, mas com um recorte interessante a partir de um fato real, o concorrente americano Prince Avalanche coloca Paul Rudd e Emile Hirsch numa estrada secundária do Texas como trabalhadores que marcam a rodovia com faixas sinalizadoras. Isso logo depois de um incêndio de grandes proporções que destruiu mais de 1500 casas da região e vitimou quatro pessoas em 1987. A rotina de ambos é aborrecida e eles passam o tempo falando de mulheres, diversão e da namorada de Rudd, que vem a ser irmã do personagem de Hirsch. O diretor David Gordon Green foge da óbvia investigação do fato, que se mantém até hoje com causa desconhecida, para pincelar a tragédia com sensibilidade e um pé no registro do fantástico. É aquela veia do cinema independente americano que permite esse respiro, sem ter que arcar com explicações desncessárias.
Há também um registro fora do real, flertando com o fantástico, no surpreendente Harmony Lessons, título em inglês do filme do Casaquistão. Já conhecemos as plagas desoladas do país de filmes como Tulpan, e no tratamento de seus costumes tradicionais. O diretor Emir Baigazin nos aproxima de um vilarejo também distante da capital e de um tema mais atual relacionado ao universo escolar de adolescentes. A figura central é o garoto Aslan, tímido e isolado, criado pela avó. Sem amigos próximos na escola, ele se dedica a experiências pouco ortodoxas em casa. Evita se envolver com as gangues que dividem o poder no colégio. Será defendido, quando atacado por um desses líderes, por um recém-chegado da capital, o que levará a um crime respondido por ambos. Claro, o tema aqui é o tão famigerado bullying em sua face mais radical, quando se propaga como violência. Baigazin faz paralelos interessantes, no entanto, entre tradições do seu povo que estão caindo em desuso e o aparecimento de uma nova ordem social, representada, por exemplo, por uma polícia corrupta e bruta. Ficaria contente se o filme fosse lembrado na premiação.
Por fim tivemos um início da manhã bem simpático com o novo Hong Sangsoo. O filme é novo, mas a fórmula velha conhecida de vocês ao menos desde Hahaha, que passou por aí não faz muito tempo. O coreano já assumiu, mais de uma vez, seu amor pela Nouvelle Vague, especialmente por Eric Rohmer nas infindáveis discussões das relações românticas, e afinal, humanas. O que o aproxima bastante também de Alain Resnais. A trama é pouco renovada, exceto pelas homenagens mais específicas agora em Nobody's Daughter Haewon. No caso tudo concerne a Charlotte Gainsbourg, a atriz francesa preferida recentemente por Lars Von Trier, a quem Sangsoo se refere diretamente na composição da personagem do título. Haewon é a estudante que quer ser atriz e está envolvida com um professor. Seu cabelo, seu jeito, suas roupas, tudo mimetiza Charlotte, a filha de Jane Birkin que logo no início aparece como ela mesma a garota. Seguem-se então as habituais desventuras do casal principal, entre separações e reencontros, até que o protagonista estoura num choro convulsivo. É outra remissão também do diretor, no caso representado pela ária Lascia ch'io Pianga, ou deixe que eu chore, que serve como trilha para o professor e sua pupila, mas vocês vão lembrar, também está na magnífica cena inicial de Anticristo, de Trier, e claro, com Charlotte. Não acho um trabalho mais especial de Sangsoo para merecer prêmios, mas veremos amanhã. Hoje ainda serão revelados os filmes preferidos da Fipresci, a federação de criticos internacionais, o que costuma ser boa indicação para os Ursos da competição. Mais tarde trago o resultado para o blog, até!

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