Política

Berlinale

Na perspectiva gay

por orlando margarido — publicado 11/02/2014 17h51, última modificação 11/02/2014 18h34
Brasileiros e um italiano na tradição do festival mais aberto a diversidade
Praia do Futuro

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Berlim -- Não é apenas Karim Aïnouz que traz a Berlinale uma pulsão do universo gay. Entre os brasileiros, o gaúcho David Pretto trata de um personagem transexual no documentário Castanha. Não consegui assistir ainda ao filme, mas colegas me falam muito bem do modo como o realizador aborda seu tema.

Ontem tivemos no Panorama a sessão oficial de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, o longa-metragem de Daniel Ribeiro que nasceu de um curta anterior do próprio diretor. Temia que fosse apenas uma versão estendida, mas Daniel consegue, com os mesmos personagens e atores, dar frescor e novas questões ao drama dos adolescentes. Há Léo, o garoto cego. Sua melhoramiga, e habitual companhia no momento de seguir da escola para casa, é Giovanna.

Entre os dois, a consumar a primeira crise, surge Gabriel. Mais do que ciúmes a separar o trio, o que pega é o carinho que brota entre os dois amigos. Com sensibilidade e humor, o filme cativa. A equipe viveu ontem a sua primeira experiência internacional de sucesso, com sala cheia e direto a perguntas da platéia. E há ainda o filme da dupla Marcelo Gomes e Cao Guimarães, O Homem das Multidões. Para dar o contraponto, a história desta vez é até certo ponto comum ao universo hetero. Embora não seja essa a pespectiva. Achei que os diretores perderam a oportunidade de um título muito mais inspirado, O Homem Morto.

Quando assistirem, entenderão o por quê. Mas Marcelo e Cao preferiram a relação com o título do conto de Edgar Allan Poe, que lhes serve de inspiração. Um condutor de trem em Belo Horizonte (Paulo André) vive um contidiano anódino, solitário. Adora flanar (a experência está no livro de Poe) entre a turba e se desconcerta quando sozinho.

Uma colega de trabalho (Silvia Lourenço) o trará de volta a vida. Gostei do filme, seu rigor na elaboração dos planos e dos cenários em que o protagonista, como um transeunte anônimo, carrega sua não vida. Os brasileiros estão fazendo bonito por aqui.