Cultura

71 Festival de Veneza

Na metade

por Orlando Margarido — publicado 01/09/2014 13h43
Com filmes apenas dignos, e há exceção, a mostra veneziana se mantém até agora na irrelevância

 

Estamos no meio do calendário da competição veneziana e que balanço se pode tirar dos títulos já exibidos? Por certo nenhum desastre, e isto seguramente ocorreu em anos precedentes, quando uma produção péssima local vencia a barreira de uma seleção cheia de interesses da política cinematográfica (eram os anos mais férteis, digamos, da era Berlusconi) e chegavam ao concurso. Mas também não se viu ainda aquele filme que paralisa a platéia e traz a controvérsia, a originalidade. Houve sim um impacto. O documentário The Look of Silence é o parâmetro geral do melhor trabalho exibido, mas é bom frisar que isso se deve muito ao conteúdo, ao tema do massacre de indonésios nos anos 60 durante a ditadura de Suharto, e a coragem do diretor americano Joshua Oppenheirmer em retornar a essa memória através da busca de um jovem pelo esclarecimento da morte trágica do irmão que não conheceu. Acho difícil que o filme saia daqui de mãos vazias, até como postura política do festival que no ano passado premiou com o Leão de Ouro um documentário bem menos relevante. É de relevância afinal de que se deve tratar num festival de cinema, e muito mais em um de tradição como Veneza. E os filmes vistos entre ontem e hoje levam a essa indagação do quanto merecem realmente uma vitrine de competição. Comecemos pelo menos problemático, a co-producão franco-arabe Loin des Hommes, sobre um ex-combatente atual professor de crianças (o sempre bom Viggo Mortensen) que na Argélia dos anos 40 vê a luta pela independência recrudescer. De origem mesclada, como é comum naquele território de múltiplas etnias e colonização, ele herda a contragosto a tarefa de acompanhar a polícia um jovem árabe que assassinou seu cunhado. A viagem é motivo para ambos se enredarem primeiro com os rebeldes, depois com os franceses, e firmarem amizade. O diretor David Oelhoffen trata o painel com o tino de um western e isso dá força e nos ganha com um enredo baseado nos códigos típicos do genero, como honra e moral. Mas não evita contudo alguma facilidade para aproximar seus protagonistas e poderia ter pisado mais a fundo na questão que começa a mudar o país.

Nesse sentido de um painel histórico de transformação e empenho individual muito mais grave é o filme de Faith Akin, o interessante realizador turco que já nos deu filmes de tons variados, do drama ao humor de revisão. Por certo é a maior decepção até agora do festival, dada a competência de Akin. E ele começa errando feio ao tornar seu retrato do início do genocídio armênio um projeto internacional, falado na maior parte em inglês, sem preocupação em dar um traço genuíno a história. O ator francês de origem árabe Tahar  Rahin, de O Profeta, surge um tanto falseado nesse contexto como o pai de família armênia recrutado para servir ao exército do Império Otomano, em 1915. Será na verdade um escravo a abrir estradas, e daí se inicia o ciclo de sofrimento para sobreviver e mais tarde reencontrar suas filhas, em viagem inclusive aos Estados Unidos. Longo e penoso, o filme é obviamente um produto escolhido pelo respeito ao diretor, que quando se mantinha no tema de suas origens se enquadrava bem melhor no conceito de um festival.