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Movidos pelo seu redor

por Orlando Margarido — publicado 18/08/2012 22h03, última modificação 18/08/2012 22h03

A poucas horas da entrega dos Kikitos, recupero o calendárioda competição que ficou atrasado em virtude da agenda cheia da semana, os meustextos para Carta Capital e a participação no júri da crítica. Antes de tudo,digo que tivemos uma boa votação no geral, finalizada nesta manhã, com apenasalgum saudável atrito em relação aos filmes latinos. As discussões proveitosasrefletem duas características dessa 40ª edição. Uma é a seleção acima da médiadas últimas edições entre os brasileiros, com ao menos três títulos dequalidade e animadores para um debate, mas fraca entre os latinos, de poucarepresentatividade de países. Outra é a atenção da curadoria para novosrealizadores, o que promoveu frescor e equilíbrio no geral. Também oscurtas-metragens tiveram desempenho razoável e estimulante se comparado a umasafra recente de outros festivais. Dito isso, analiso rapidamente os dois melhores filmes em bloco:

O que se Move e O Som ao Redor – Não apenas os melhores da competição nacional, ao lado de O Super Nada, sobre o qual já escrevi, mas ótimos filmes. Não será acaso seus diretores serem estreantes no longa-metragem depois de exercícios inteligentes no formato curta. O primeiro é de Caetano Gotardo, capixaba egresso da ECA, que chacoalhou a plateia (ao menos a de jornalistas e críticos) com um drama de imensa tristeza, sem que isso seja um percalço, em cima de fatos da crônica diária de nossa sociedade atual. Poderia se dizer crônica policial, porque comumente eles estão nos jornais, mas nem todas as histórias tem o peso do juízo da justiça. Gotardo evita falar em filme de episódios, mas o recorte existe, ainda que de alguma maneira integrados. O primeiro, sim, envolve a polícia. Um adolescente vive seu último dia de férias antes de voltar a escola, entre o namorico com uma colega e a rotina de cobrança da mãe e do pai, não necessariamente numa família unida. Policiais batem à porta na manhã seguinte. Querem investigar um computador no qual foi flagrado o acesso a pornografia infantil. Há um pedófilo, portanto, na casa. A revelação virá na forma de um baque duro. E qual a cena seguinte? A mãe, não por acaso a grande Cida Moreira, cantora de voz potente, está na delegacia e canta seu lamento ao ocorrido. É só a primeira, desculpem, porrada do filme. Nesse mesmo formato, veremos o casal e pais recentes cuja crise pontual e vertiginosa do marido prenunciará a tragédia. Aqui é Andrea Marquee, cantora de carreira cult, que entoará o texto final. No terceiro, Fernanda Vianna, maravilhosa atriz do Grupo Galpão , nos dará logo de cara seu sofrimento ao conversar com o marido sobre o filho recém-nascido sumido na maternidade. Parece anticlímax, mas não é. A mãe se prepara para um possível reencontro com o passado. Duro, e também melancólico, desfecho. Ao final nos perguntamos como um estreante de 31 anos pode se embrenhar tanto num mundo tão triste. E também tão belo.
Quase o mesmo pode ser dito do longa de estréia do pernambucano Kleber Mendonça, O Som ao Redor. No sentido que seu filme também está repleto da dor e do medo urbano que parece cercar a todos numa grande metrópole, as nossas com certeza pois conhecemos situações de perto como o filme enfeixa. Tudo se passa numa única rua num bairro classe média alta do Recife, o endereço onde o próprio realizador morou quando criança e voltou a residir agora. Entre as poucas casas, há a de um casal comum com suas duas crianças, não fosse ela completamente desnorteada com o latido do cão da vizinha. Próximo estão os altos prédios da elite, fechada por altos portões, guaritas, câmera de vídeo e todo o aparato mais que houver para se proteger. Mas não é o suficiente. Um dia surge o personagem de Irandhir Santos oferecendo segurança privada em troca de uma mensalidade. Ouve de um dono de engenho e da cobertura de um desses prédios que a rua é dele, deste senhor de barba e cabelos brancos (o ótimo ator paraibano W. Sôlha) acostumada a mandar em suas terra e ali também. Seus netos, um corretor de imóveis um tanto sem existência, preocupado com a nova namorada, e um jovem mimado que costuma aplicar pequenos roubos por diversão, circundam o avô. Esses diferentes universos começam a se roçar, quando a empregada do milionário vai para cama com o segurança da rua, por exemplo. A sensação é de um caldeirão prestes a explodir, e isso de certa forma ocorrerá quando revelada uma inesperada junção entre passado e presente. Mendonça, do ótimo curta Recife Frio, é também um critico de cinema, e todas as suas referências de profissional habituado a ver o melhor do cinema está na história, de Michael Haneke a John Carpenter, este como ele mesmo salientou. Encontrei no filme até uma lembrança ao Leopardo de Visconti, quando os dois namorados vasculham o porão da casa decadente do engenho. Mas o que importa são as inúmeras pistas e janelas que o filme abre para quem quiser dali tirar sua própria viagem, apoiado num ótimo elenco e, claro, no recurso sonoro sofisticado que faz valer o título. Até por ironia, a exibição oficial no festival foi prejudicada por uma falha técnica quando algumas das caixas de som da sala de cinema queimaram a menos de meia hora do final. Um desastre para um filme como este que exige atenção e mergulho do espectador. Voltamos na manhã seguinte para rever e tentar entrar novamente nesse estranho mundo da classe média dos grandes centros. Não se perdeu nada, o que só confirma o valor do filme. Será injustiça se Gotardo e Kleber não saírem com Kikitos importantes desta noite de Gramado.

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