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Meu Oscar

por Orlando Margarido — publicado 01/03/2012 21h30, última modificação 01/03/2012 21h30

Caros, só agora lanço um post sobre a principal festa do cinema porque simplesmente não havia visto ainda a maioria dos filmes concorrentes já em cartaz no nosso circuito. Hoje consegui terminar a maratona com Histórias Cruzadas, em exibição num distante (para mim) shopping da cidade, pois além de tudo as salas do Frei Caneca, reduto preferido para assistir a boa parte da programação, está em reforma. Com a ida a Berlinale e uma esticada rápida que dei até Veneza (não para o Carnaval, mas para ver a Serenissima no inverno), acabei por perder muitas estréias por aqui. Feito o dever de casa, não colocaria muitos reparos no geral da premiação, a principal delas o fato de Hugo ter ficado apenas com reconhecimentos técnicos. Acho que merecia mais, não digo o melhor filme, embora tenha gostado tanto quanto de O Artista, mas uma direção ficaria bonito a Scorsese.
Os filmes, vocês sabem e os colegas críticos já andaram comentando, são interessantes paralelos em seus temas de cinema, o francês indo buscar sua fonte nas origens de Hollywood, na produção muda, e o título americano invertendo a mão para resgatar o pioneiro francês Georges Meliés e seu significado para toda uma nova geração. A diferença, com vantagem para Scorsese, é que O Artista lança mão de influências facilitadoras a partir de clássicos como Cantando na Chuva e atores icônicos do momento, a exemplo de Douglas Fairbanks. Já Scorsese teve a sacada de mostrar que nem tudo se fez ali na esquina de Los Angeles, do outro lado do Atlântico também houve quem se lançasse na aventura de fazer cinema, e tudo isso com uma história cativante. E adorei o 3D nesse caso, tão adequado aos mergulhos nos sonhos de Meliés, as homenagens sempre presentes, inclusive a Hollywood. Curioso lembrar ainda que Cannes, com um americano a presidir o júri, Robert De Niro, esnobou O Artista para a Palma de Ouro, deixando apenas uma brecha com Jean Dujardin como melhor ator. Hollywood, no entanto, abraçou o filme com todas as forças, o que é meritório também no sentido de ter-se finalmente aberto um novo caminho para produções estrangeiras nas principais categorias da Academia.
E por falar em títulos estrangeiros, ninguém discutirá o valor de A Separação, mesmo que não se tenha ainda visto os demais concorrentes. Conheço apenas o filme belga e o israelense, e no caso deste, Footnote, acho questionável até sua presença entre os indicados. Fácil entender, no entanto, quando boa parte dos votantes na Academia tem origem judaica. A mesma idéia de injustiça sobre possíveis bons filmes não indicados me ocorre quanto a J.Edgar, que também pude ver só neste último final de semana, e foi preterido. Há problemas no filme de Clint Eastwood, que repisa muitas questões que se propõe como significativas na formação da personalidade de Hoover, como a influência da mãe, a homossexualidade e o relacionamento de uma vida com Robert Irwin. Mas vi no filme potência e genuína interpretação dessa personalidade tão controversa, com um enquadramento nada maniqueísta, expondo sutilezas e lados sombrios da figura de Hoover que nunca esclareceremos. Eastwood tem essa dinâmica em seus filmes, de cutucar uma América ambiciosa e cheia de pontos negativos, mas que nem por isso deixou de se impor, bem ou mal, ao mundo.
Me parece justamente o oposto o que faz Histórias Cruzadas, Moneyball e Tão Forte Tão Perto. Este de Stephen Daldry, especialmente, me veria feliz se tivesse cedido lugar a J.Edgar, e claro que ali está entre os melhores por ser o primeiro grande título a ficcionalizar o 11 de setembro. Não gastarei muito tempo com Moneyball exceto para reconhecer a rara abordagem do mundo do beisebol no cinema e um bom veículo para Brad Pitt se exercitar um pouco mais esforçado. Mas Histórias Cruzadas é a típica renovação de um padrão do cinema americano em de vez em quando fustigar antigas (ou ainda correntes) posturas preconceituosas que a princípio hoje se acredita banidas. Spielberg enxergou já nos anos 80 a dimensão do tema para aplacar a consciência de grandes platéias, americanas claro, com A Cor Púrpura. Não por acaso este também foi veículo para uma atriz estourar, de nome Whoopi Goldberg. A diferença é que ela não levou a estatueta, enquanto Octavia Spencer ganhou a sua de atriz coadjuvante pelo papel em Histórias Cruzadas. E se tinha dúvidas quanto ao merecimento de Meryl Streep por sua Margaret Thatcher, não pelo desempenho realmente bom mas por uma postura de humaniza-la que acho irritante no filme, fiquei feliz depois de assistir ao show de franqueza e inteligência na coletiva dela em Berlim. É mesmo difícil não gostar de Meryl, e a Academia finalmente se curvou a isso. Até.

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