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Marcianitos e excluídos

por Orlando Margarido — publicado 28/01/2012 18h23, última modificação 28/01/2012 18h23

Tiradentes – Caros, terminou oficialmente a Aurora, a seção competitiva que em boa parte confere vitalidade a essa cada vez mais interessante mostra do país. Há quinze anos que ela movimenta a cidade em janeiro, data que o credencia como o primeiro no calendário dos festivais brasileiros. Essa condição faz toda a diferença. Aqui se tem um retrato da jovem e novíssima produção que de certa forma orientará os demais festivais durante o ano, ao menos aqueles interessados em se sintonizar com a novidade. O formato também atrai um tipo de profissional que não se vê muito nas demais iniciativas. São “os olheiros” das vitrines internacionais que a Mostra de Tiradentes convida para pinçar aqui o que veem de melhor, segundo seus critérios claro, e levar para suas programações no exterior. Conversei com alguns deles para a Carta e obtive uma curiosa diferença de gosto, em que pese o subjetivo mas também o pensamento em relação ao conceito do festival e sua platéia. Volto a eles depois para me concentrar no que vimos ontem no Cine-Tenda, sob chuva torrencial (verdade seja dita, São Pedro ajudou, foram dias ensolarados até então). Nada que complicasse a vida desafiadora dos cinéfilos, e claro, nós jornalistas e críticos. Foram nada menos que três longas em seguida, mas apenas Estradeiros não integra a Aurora. De todo modo, ninguém queria perder o documentário de estréia da dupla pernambucana Sérgio Oliveira e Renata Pinheiro, esta dos ótimos curtas (e premiados) Superbarroco e Praça Walt Disney, o segundo assinado com Sérgio. E também Strovengah – Amor Torto, ficção de André Sampaio, concorrente carioca do selo independente Cavideo, e A Cidade É uma Só¿ do brasiliense Adirley Queirós.
Comecemos por este último. A pergunta do título refere-se ironicamente a uma expressão institucional do governo do Distrito Federal, ao mesmo tempo que ao jingle do projeto, que nos anos 70 envolveu moradores pobres estabelecidos próximos ao Plano Piloto. Como eram indesejáveis ali, porque arranhavam a imagem de cartão-postal do conjunto arquitetônico de Oscar Niemeyer, as autoridades decidiram retira-los a força, oferecendo em troca habitações populares numa distante periferia. A ação foi batizada de Campanha de Erradicação de Invasões. Sim, porque para os mandatários aquelas pessoas haviam invadido áreas não destinadas a elas, essas pessoas que haviam em grande parte ajudado a erguer Brasília. São os excluídos do sonho de Kubitschek. Com as iniciais do nome pomposo do projeto, tem-se CEI. Você já matou a charada. A nova e dita, pois vendida como tal, confortável aglomeração se transformou na famosa Ceilândia, reconhecimento que se dá não pela bem-sucedida operação, mas pela catastrófica condição de abandono e pobreza de uma dessas cidades satélites. Adirley sustenta seu filme em três tripés: o da lembrança e memória documental de quem viveu a experiência de ser transferido ainda criança, o de um personagem que negocia lotes e imóveis no local e um cantor de rap candidato a posto distrital que anda pela Ceilândia fazendo-se conhecer.
É portanto um documentário? Sim e não. O diretor parte de uma descrição da realidade, como o fato ocorrido da transferência, chama moradores desse núcleo habitacional, mas pede a eles que criem tipos, personagens que desejariam interpretar na tela. São dois atores, a princípio, mas estão mais para amadores. Mergulha então no ficcional. O candidato, que já foi operário em filme anterior, mas segundo o diretor pediu para mudar para político e assim se sentir importante é o tipo mais cativante por sua lábia e postura malandra, que tem como marca um grande X. Não apenas aquele xis que marcará a cédula de votação, mas também outro que costumava surgir aleatório nos barracos da ocupação para demonstrar que seria realocado. É um interessante e bem bolado estudo dos primórdios de Brasília e seus desmandos, não muito longe do que acontece hoje, e que tem diálogo direto com os documentários do veterano Vladimir Carvalho, a exemplo de Conterrâneos Velhos de Guerra.
Não há expedientes que atravessem a fronteira para ficção no documentário de Sérgio e Renata, apenas a sinceridade e franqueza dos seus personagens, jovens que se poderia conceituar de modo generalizado como hippies, ou ao menos sem enlaces com um modo de vida tradicional. Esses rapazes e moças, casais com filhos às vezes, e mesmo tipos mais maduros, vivem de seu artesanato ou outra forma de arte e estão frequentemente na estrada, mudando de cidade, estado ou mesmo de países. São estradeiros, pessoas sem residência fixa e justificam sua opção pela liberdade, mas também com preço a pagar, como diz um pai de família logo no início. Seguem depoimentos ou a câmera se abre a rodas de discussões informais, mas o dispositivo preferido da dupla de diretores é audiovisual, ou seja, captando imagens de estradas, localidades onde estão seus personagens, trabalhos visuais poéticos que se compõem com o pensamento libertário desse universo de gente. A música, por assim dizer, principal não poderia ser melhor escolhida. Marcianita (“Eu quero um broto de Marte que seja sincero” (...) “Mas no ano 70 seremos felizes os dois”), renovada aqui pelo DJ Dolores, tem tudo a ver com esses “marcianitos”, pessoas que muitos diriam viver em outro planeta. Eu que já andava com a canção na cabeça por causa da deliciosa versão de Jussara Silveira em seu novo disco embarquei com a dupla de diretores cantarolando junto. Um belo filme e um final, como outros aqui, num corte radical e surpreendente.
Esses finais valeriam um post a parte. A nova geração passa longe de uma condição de cinema redondinho, com início, meio e fim, e este justamente não trairia a proposta. Mas nesta edição eu não esperei tanto pelo ponto final, viesse como viesse, como em Strovengah, tentativa de dialogar com um certo cinema autoral nos anos 70 pelo viés, digamos, histérico. Um escritor e sua namorada se isolam numa cabana na serra para que ele escreva seu mais novo romance. Num recurso de inspiração, ele veste manequins de personagens que sugerem os do livro e com eles dialoga. Enquanto isso vemos a mulher em banhos de cachoeira assistido por um morador próximo, um tipo com alguma debilidade que ajuda um cego a se locomover. A tensão cresce também entre o par e os caseiros e a possibilidade de estarem sendo observados, o que leva a mulher a uma crise. Na tentativa tanto de consumar um clima de embate emocional entre o casal, na linha talvez de Julio Bressane, e também de discutir as fronteiras entre realidade e fantasia comuns à criação literária, o filme prefere uma via esvaziada de dramaticidade e conteúdo. Registre-se a presença de José Marinho, ator de Glauber Rocha e do Cinema Novo em geral como o velho cego, cuja presença de porte contrasta com a pouca força do elenco em geral.
Enfim, a Aurora propõe desafios, como já disse, e sair com perdas e ganhos dessa maratona é parte do jogo. Daqui a pouco, as 22h30, saberemos a visão do júri dessa nova fornada. Antes, porém temos a exibição de Augustas, do nosso querido Francisco Cesar Filho, o Chiquinho, ou Xiquinho na sua face DJ, diretor e produtor de festivais que conheço desde sua carreira no curta-metragem, em especial Rota ABC. Em seguida, ainda, o último longa de Alberto Salvá, Na Carne e na Alma, morto em outubro passado. Volto, então, com os premiados os comentários finais dessa 15ª edição de Tiradentes. Até.

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