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Cultura

71 Festival de Veneza

Leopardi em busca do Leão

por — publicado 02/09/2014 11h58

Acabei de chegar da entrevista em grupo com Mario Martone, o diretor italiano que apresentou ontem na competição Il Giovane Favoloso. E quem é o jovem fabuloso do título? Pensava que Giacomo Leopardi fosse um poeta tão conhecido como Dante fora da Itália, mas houve quem nunca tivesse ouvido falar dele, o que talvez ateste a necessidade de um filme para reavivar sua memória. Aqui, claro, Leopardi se aprende na escola, me disse um amigo italiano. E aí teríamos outra questão, a razão ou não de trazer a vida e obra a tela. O jornal La Reppublica hoje lembra que ao saber do projeto, Bernardo Bertolucci indagou a Martone de que modo iria filmar a poesia. Realmente, este costuma ser um desafio e tanto, quase sempre perdido.

E qual foi a supresa ao ler hoje no jornal diário que circula nos festivais e nos demais diários italianos que o filme foi bem aceito, muito elogiado até. Isso não quer dizer que Martone tenha tido um exito inquestionavel. Apenas nâo arriscou, como ele mesmo assumiu na conversa. O filme é painel classico, didatico mesmo, do jovem de origem nobre que nasce com defeito fisico que o deixara corcunda e é aproximado da literatura pelo pai letrado, mas se rebela quanto ao caminho de tradição a seguir. Há aqui e ali, muito sutilmente, um traço de ousadia, entre os monólogos em que o próprio protagonista (Elio Germano, ótimo) faz sobre sua poesia, os atos mais radicais em uma trajetória com colegas poetas que o tira do norte para conhecer a vida e viver experiencias até Roma e Napoli. O cinema de Martone, um diretor do círculo de Toni Servillo no teatro napolitano, é ligado a esses paineis históricos e ele nao abre mao de uma realização um tanto quadrada, como fez com Noi Credevamo, sobre o Rissorgimento. Agora, no chamado Ottocento, ele acredita que sua figura literário pode ecoar na vida de hoje na Itália, em sua redescoberta pós um período também decadente. Para o mundo talvez é que este objeto soe desconexo, ultrapassado, mas um país tem antes que relembrar seu passado mais nobre antes de se lançar a uma busca mais clara do que querer no futuro.

Martone compara seu Leopardi como uma espécie de Pasolini na rebeldia, e será este o diretor a encerrar os temas italianos da competição com a versao do americano Abel Ferrara sobre seu assassinato nos anos 70. O painel italiano este ano teve seu melhor momento com Anime Nere, e talvez o pior com Saverio Constanzo em Hungry Hearts. Esta espécie de thriller psicológico, muito aparentado com O Bebê de Rosemary, até começa interessante, com a jovem italiana que se casa com um americano em Nova York e se torna obsessiva com uma criação mais saudável de seu bebê. Isso significa não alimenta lo com carne ou qualquer comida de origem animal. A criança fica fraca, nao cresce e preocupa o pai,que passa a uma disputa mais radical com a mulher. Há muitas incongruencias no drama, ainda que baseado em um livro, além de uma saída fácil para um clímax de violencia. Melhor se saiu o realizador de Anime Nere, que conseguiu fazer um estimulante retrato da máfia calabresa com o mínimo de sangue.