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Jovem saudável

por Orlando Margarido — publicado 31/01/2012 00h17, última modificação 31/01/2012 00h17

Caros, de novo em São Paulo depois de uma viagem em parte complicada. Comecei a freqüentar a Mostra Tiradentes no ano passado e portanto só posso comentar sobre esse trajeto de avião e microonibus a cidade mineira nas duas vezes que o fiz. Não é um roteiro fácil, mas a volta de ontem me deixou mal particularmente. São quatro horas até o aeroporto de Confins, e o motorista não parou para um descanso! Acho que estávamos atrasados para pegar os vôos, havia mais pessoas além do grupo de São Paulo que embarcou todo junto. O resultado é que cheguei lívido em Confins, com enjôo, pressão baixa e tudo o mais. Bons colegas me ajudaram e quando embarquei no avião já estava melhor. Hoje descansei e agora faço meu balanço da 15ª edição. Antes, apenas uma reparação lembrada pelo diretor Vitor Graize. Disse em post anterior que o fotógrafo de As Horas Vulgares era Aloysio Raulino, e não é. Lucas Barbi, também curta-metragista, assina o bonito visual preto-e-branco do filme. Puro lapso, Raulino está em Corpo Presente, de quem comentamos também, nós os colegas da imprensa, a bela fotografia colorida.

Comecemos pelo final, a premiação. Não acho que num caso particular como Tiradentes, que se propõe como uma iniciativa mais jovem e aberta a reflexão do cinema brasileiro, os prêmios confiram maior relevância. Mas eles indicam algo, um caminho, um pensamento do que se espera dessa nova geração. Em especial, os dois grandes vencedores na categoria longa indicam que há um gosto pela investigação, quebra de gêneros, de linguagem, de uma transição entre propostas que vem beneficiando nosso cinema. Certamente A Cidade É uma Só?, do brasiliense Adirley Queirós, incorpora como poucos essas questões e mereceu o voto do júri da crítica, que é quem escolhe os melhores em Tiradentes. A ponto de confundir a platéia do Cine-Tenda, com sua realidade encenada, na qual até o material de arquivo é manipulado em favor de um fato no mínimo controverso que foi a criação da Ceilândia, periferia de Brasília, em 1971. Queirós nem precisava, mas quer recrudescer o debate se utilizando de moradores locais que assumem personagens de alguma forma atingidos por uma decisão autoritária do governo do DF. É um filme político, na medida em que suscita também outras barbaridades, atuais até, como a recente expulsão do Pinheirinho. Não é improvável que o júri tenha se imbuído também desse manifesto, que, aliás, foi literal dias antes quando o talentoso ator Marat Descartes aproveitou a apresentação de Corpo Presente, do qual é um dos protagonistas, para ler um protesto da diretora Juliana Rojas (Trabalhar Cansa) sobre o episódio.

Não me chamou a atenção naquele momento, mas a atitude perpetrada pelo governo do DF nos anos 70 tem tudo a ver com a aquela na gestão dos militares que mais ou menos no mesmo período inauguraram um elefante branco em plena Ilha do Fundão no Rio de Janeiro. O Hospital Universitário da Universidade Fluminense tornou-se um mamute incômodo e desnecessário dada a megalomania de seus empreendedores. A construção pensada desde o governo de Getúlio Vargas é o objeto de estudo de HU, documentário de Pedro Urano e Joana Traub Cseko. Há, ou havia, dois hospitais em funcionamento, o que atende a população e outro, abandonado e desativado pelas péssimas condições que acabou implodido em dezembro passado. A câmera dos diretores imerge nesses espaços, confrontando a atividade de um e a falência de outro. Curioso que agradou ao Júri Jovem, formado por estudantes, que concedeu ao filme o prêmio. Talvez justamente por aproximar um período e suas destemperanças de um Brasil atual do qual não se espera mais tamanhos desacertos.
No mais tivemos a manifestação do júri popular, que como o nome diz é formado pelo público que vota em cédulas durante a mostra. Compreensível, e justificável, a preferência por L, de Thais Fujinaga, curta-metragem que vem arrebanhando fãs por onde passa. E não seria em Tiradentes, com jovens a entupir literalmente suas ruas, que a história entre adolescentes que não se enquadram nas normas do universo de convivência da idade passaria despercebida. Popularidade talvez seja o único quesito justificável, no entanto, para a escolha de O Mineiro e o Queijo, o simpático mas quadrado (sem trocadilho) documentário de Helvécio Ratton. Estamos em Minas afinal e os personagens falam a língua local.

Com raras exceções, os longas exibidos regularam-se na qualidade e trouxeram boas discussões. Saíram da zona de conforto para dividir platéia e crítica, e mesmo quando o risco tornou-se mais sustentação do que um projeto acabado e bem-sucedido, exemplo maior em As Horas Vulgares, houve boa sintonia entre realizadores e interlocutores para se chegar a um saudável debate. Cada vez mais Tiradentes me parece uma arena para se fugir de um mero digladiar entre a certeza de diretores e a dúvida dos especialistas, comum em outros festivais, e se aprofundar nas razões e atitudes do fazer cinema. Por isso também se destrincha a crítica, a produção prática do cinema e outros temas que devem e precisam estar na cartilha do dia entre os novos realizadores. Longa vida a esse adolescente festival.

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