Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / Início melancólico, mas bom

Sem categoria

Início melancólico, mas bom

por Orlando Margarido — publicado 19/09/2012 20h54, última modificação 19/09/2012 20h54

Brasília – Antes de tudo a correção de um lapso. Ontem lhes disse que a programação competitiva de Brasília começava com o documentário Kátia e na sequência a ficção de Lúcia Murat, A Memória que me Contam. Não, não. Isto será hoje. Ontem vimos, na ordem que permanecerá até o final, o doc Um Filme para Dirceu, de Ana Johann, representante do Paraná, e o pernambucano Eles Voltam, de Marcelo Lordello. Do primeiro pode-se denotar certa confusão de propósitos, entre a tentativa de buscar a via da metalinguagem, do filme dentro do filme, ou ao menos do projeto de um, e a exploração do personagem peculiar que tem frente à câmera. Este é Dirceu Cieslinski, jovem gaitero catarinense que ficou paraplégico aos 17 anos e, recuperado anos depois, roda o Sul do país tocando em bailes populares. Certo de que sua vida valeria o interesse do cinema, ele procurou a diretora para que ela realizasse o projeto, mas esta preferiu justamente acompanha-lo na busca dos apoios e patrocínios, e claro, sua rotina de shows. Antes de tudo, vale dizer que Dirceu tem seu carisma na tela, especialmente quando investe no conceito de relacionamentos amorosos, com duas ou três mulheres no caminho, na afeição familiar. Mas talvez aí resida o problema do filme, em acreditar que por ter esse tipo galhardo em cena bastaria para assegurar o interesse. Por certo numa duração menor, um curta, por exemplo. Aos poucos o humor, a simpatia, vão se desgastando, se repetindo. E pelo lado de discutir o fazer cinema a diretora tampouco aprofunda um material que tende a render bons questionamentos.
Desafio é, entre outras palavras, o que o documentário não vence, mas a ficção de Lordello o faz com bastante eficácia. Isso porque trabalha o tempo todo num registro complicado à conquista do interesse, aquele tristonho da perda, do vazio, da estagnação. Tudo isso é representado pela menina de 12 anos Cris, abandonada sem explicações à beira de uma rodovia pelos pais junto com o irmão pouco mais velho. São filhos da classe rica, intui-se, pelas roupas e um celular último tipo que será um símbolo importante da trama. O irmão também a deixa. É uma espécie de segundo trauma para a garota, já surpresa e desorientada. Ele caminhará sozinha, primeiro para um acampamento de sem terras, depois acolhida por uma empregada doméstica e por fim por uma conhecida da família, que a levará de volta a família, à escola, aos amigos, universo com o qual nitidamente não deseja mais se reencontrar. O recurso fácil aparente do reaprendizado de Cris, jogada abruptamente num cenário social que não é o dela, se desmantela porque não é esta a zona de conforto em que Lordello trabalha. Sua proposta é interiorizada, mais ligada a uma situação geral de mal estar que toma muitos dos personagens com os quais ela trava contato. Nesse sentido, há uma afinidade com certa produção pernambucana que tem chegado a nós, como O Som ao Redor, de Kleber Mendonça, na qual a conjunção urbana é um elmento de quebra social e não de união. Lordello buscou esse caminho com menos empenho no documentário Vigias mas agora avança e aprofunda melhor o que lhe interessa discutir.

registrado em: