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Inéditos, com e sem emoção

por Orlando Margarido — publicado 03/04/2012 00h46, última modificação 03/04/2012 00h59

Fui conferir recentemente três filmes que não havia conseguido assistir por diferentes razões ou estavam na minha mira há algum tempo, mas faltava a oportunidade. É justamente com essa intenção de nos dar uma segunda chance que surgiu a mostra pilotada por Christian Petermann no MuBE, Renomados e Inéditos, com títulos que não chegaram ao nosso circuito, atravessaram as salas e, ao menos alguns deles, foram diretamente para DVD. É o caso do filme de Bertrand Tavernier, Às Margens de um Crime, que abriu a programação há duas semanas. Vi o filme no Festival de Berlim do ano passado e fiz uma bela entrevista com o diretor, que vocês sabem, também é cinéfilo e crítico de primeira, autor de uma importante enciclopédia de cinema. Foi um ótimo papo e o filme é ainda melhor, tirando do automático as interpretações recentes de Tommy Lee Jones. Se encontrarem nas locadoras, não deixem de ver.
Mas não é de Tavernier que quero falar, e sim da programação do sábado seguinte, que foi dupla, mas pouco estimulante. Na primeira sessão, O Dublê do Diabo, de Lee Tamahori. Na seguinte, O Retorno de Tamara, a Tamara Drewe de Stephen Frears. Este foi exibido no Festival de Cannes no ano passado e nas primeiras impressões que ouvi não me pareceu programa obrigatório e pulei. Há que se fazer escolhas em festivais, e agora sei que não errei o palpite. Já o filme de Tamahori não soube de exibições em festivais e ouvi falar de “ouvido”. Vocês se lembram dele? O diretor neozelandês ganhou o mundo no início dos anos 90 com um bom filme sobre um clã maori pressionado por suas raízes e a violência social e discriminação. Lembro do título original, Once Were Warriors. Perdeu-se depois em Hollywood explorando alguns gêneros tradicionais, como o policial noir em O Preço da Traição, e chegou a fazer um 007 fraquinho. Não se pode dizer que traga algo de novo nesta versão dramatizada da vida de Uday Hussein, filho do ditador Saddam Hussein. Mas a trama lhe permite oferecer uma prova de resistência para Dominic Cooper no papel duplo do herdeiro e seu sósia, ou duplo, Latif. Como o pai, Uday também quer um homem a sua semelhança para passar por ele em situações arriscadas ou simplesmente aborrecidas. Para isso, arrancam Latif de sua família e o chantageiam para aceitar. Seu chefe, um lunático de vida extravagante, como se sabia, o tratará como mais um de seus bens. Apesar de material potente, o diretor não se contém e extravaza os estereótipos da vilania, com o traço sentimental da boa prostituta que une os opostos, papel da francesa Ludivine Sagnier.
Cooper também está em Tamara Drewe, mas não é só por isso, claro, que o filme foi ali escalado. Frears, sabemos, teve seu papel importante na renovação do cinema inglês nos anos 80, mas desde então derrapa entre acertos e decepções. Gosto de Chéri, seu filme anterior sobre uma cortesã sofisticada já na idade crítica de se afastar do ramo. Papel sob medida para Michelle Pfeiffer, que como outras cinquentonas se ressente da falta de personagens em Hollywood. Lembro dela me responder em Berlim que nem pensava em se afastar das câmeras para ficar em casa tricotando ou jogando cartas. Não chegou até ali para isso. Sua beleza, ainda, é admirável. Por isso fica mais gritante a infantilidade, a falta de nuanças com que Frears trata sua Tamara, ainda que estejamos mais no registro cômico do que no sério e dramático. A beleza de Gemma Arterton, que lembra Audrey Tautou, ajuda na trama. Ela é a garota que cresceu no campo, foi para Londres estudar e agora retorna a sua cidadezinha pacata demais para vender a propriedade da família. Acaba ficando e se enredando no cotidiano dos vizinhos que hospedam escritores em busca de inspiração. Tamara traz uma novidade estampada no rosto: um nariz que lhe era um trauma e agora está operado e novinho. Reencontra namorados e pretendentes, mas acaba mesmo atraindo um jovem cantor de rock (Cooper). O habitual quadro de tipos explorado por Frears em seu cinema, cínico e bem-humorado, extingue-se logo no início do filme e o que vemos é um descompasso de situações de traição e outras banalidades, numa comédia de erros irritante, especialmente das adolescentes que buscam manipular o jogo. Frears já foi melhor.
Ficou para Tamboro minha melhor experiência inédita nestas semanas, e acho que em muito tempo, um documentário que justifica o talento original que ainda pode se extrair no gênero por aqui. Assisti ao filme na mostra de cinema ambiental promovida pela ONG Ecofalante, de Chico Guariba, um realizador interessado no tema. Minha expectativa vinha desde o lançamento, em 2009, mas se aguçou quando no ano passado alguns colegas lembravam o impacto do filme. Havia uma razão extra para o filme ser lembrado. Estávamos então no Fest Aruanda, em João Pessoa, que se realiza no hotel Tropical, aquele edifício modernista em formato circular da praia de Tambaú. O hotel foi planejado por Sérgio Bernardes, renomado arquiteto que também vem a ser pai do diretor de Tamboro. Havia outro motivo também. Beto Brant exibiu no festival seu mais novo filme, Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios, com o mesmo fotógrafo Lula Araújo de Tamboro. Sergio Bernardes Filho se dedicou por mais de uma década ao projeto, de início uma encomenda da Embratur e depois seu empenho autoral. Morreu em 2007 sem vê-lo terminado, encargo que ficou para a mulher Rosa e equipe. Bernardeu foi cineasta bissexto. Não deixou mais de dois ou três filmes, no formato longa ao menos, e fez uma obra cult, Desesperato, interessantíssima investigação do quadro político de repressão nos anos 60 através do tormento de um intelectual inconformado com a realidade. Se Bernardes examinava ali um período negro do Brasil, também o faz em Tamboro, mas de forma nem tão evidente quanto aquela carga sombria da ditadura. O título do filme, na língua indígena, quer dizer “para todos sem exceção”. É em grande parte do Brasil excluído, nas mais variadas vertentes, de que trata o filme. E como Bernardes dá conta desse universo que se pode imaginar amplo num país de tanta desigualdade? Filma, ou registra, feérica e suntuosamente, personagens anônimos e situações diversas, de um trabalho artesanal no Nordeste a uma linha de montagem de uma grande indústria. Vai das cidades à floresta, da serra ao mar, que aliás abre e fecha o filme. A princípio, as imagens parecem ter sido realizadas a esmo, sem uma linha norteadora, mas rapidamente se encaixam num modelo exemplar sobre a grandeza e ao mesmo tempo a exclusão dela. Um único momento dramatizado surge artificial e óbvio, quando um jantar de milionários é encenado em meio a uma comunidade pobre. Nada que lime a força de um ensaio poderoso de imagens, com poucos depoimentos pontuando o cenário de um país que aos poucos se encaixa na roda mundial da fortuna, entre os convidados, lembre-se, o geógrafo Aziz Ab’Saber, morto em março. Tamboro merece uma chance no circuito para sair do círculo especializado. Quem se habilita, o Sesc e seu CineSesc por exemplo?