Política

Festival Olhar de Curitiba

Humor ao final

por Orlando Margardo — publicado 05/06/2014 11h28
No último dia seleção, uma comédia falseada de documentário com Houellebecq como protagonista

 

Terminou a programação oficial do festival e logo mais a noite acontece a premiação. Não acredito que O Sequestro de Michel Houellebecq esteja entre os premiados, ao menos entre as categorias principais, a imaginar que o júri siga a cartilha de curadoria de filmes tão reflexivos e sombrios, como destaquei em post anterior. Mas bem que poderia dar uma chance a leveza, de certa forma, ao humor, também este para refletir, já que as propostas podem conviver. O filme de Guillaume Nicloux é uma delícia em seu formato de falso documentário. Sabemos do tipo intrigante e polêmico que é este escritor, tão dado a rompantes midiáticos, que o deixam mal com a crítica e o público, acusado de reacionário etc. Mas seus livros como Partículas Elementares vendem, ganham prêmio como o Goncourt, e a fama e o dinheiro é o que move a hilária idéia de um trio peculiar e a família de um deles que sequestrar Houellebecq, que interpreta a si mesmo. Com isso conhecemos mais aqui o tipo cheio de manias, fumador e bebedor de vinho inveterado, dado a zombar da ignorância e inabilidade alheias, inclusive de seus seqüestradores, com quem trava uma relação quase amigável, a exemplo do que pode sugerir a Síndrome de Estocolmo numa escala mais séria. Como quem não quer nada o escritor inverte a posição de comando, e logo está fumando e bebendo quanto quer e tem o direito até de receber uma prostituta para aliviar a tensão. Discute-se, também, e muito, literatura, política e identidade, no engraçado papo sobre a origem polonesa (o dono da casa em que está escondido é polonês), e briga-se, até mesmo com máscaras. Enfim, um momento de diversão a ele e nós espectadores que acompanhamos proposta radical e sem respiro.
Setembro
Tive que dividir a sessão desse filme grego em duas etapas, por um compromisso de entrevista, o que não é nada razoável, mas essas maratonas nos obrigam. O tempo me deixou ainda mais curioso para a levada final e conclusão da trama e talvez por isso desaponto tenha sido ainda maior do que de colegas. Uma jovem funcionária de loja vive solitária com seu cachorro quando este morre. Decide enterrar no quintal da casa de uma família da qual se aproximou por intermédio da convivência do cão com as crianças do casal. O vácuo em sua vida abre um estímulo a obsessão. A moça quer a todo custo conquistar a simpatia da família, o que consegue da esposa, mas não do marido. Cerca-os todo tempo, cria expedientes para se inserir na casa, mas nos perguntamos todo o tempo de seu real propósito e como o sintoma vai evoluir. Os filmes gregos de nova geração, num clima de mal estar psicológico ou direto gerado pela crise, tem tido resultados estimulantes. Aqui pode-se até valorizar a proposta de Penny Panayotopoulo em se afastar desse universo, criar um clima misterioso, mas pena não nos oferecer um fecho a altura.