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Grandes temas, grandes filmes

por Orlando Margarido — publicado 05/09/2012 17h17, última modificação 05/09/2012 17h17

Veneza – Caros, fiquei longe do blog para me dedicar as matérias da edição impressa da CartaCapital. Vejam lá a partir de sexta-feira um texto sobre a homenagem a Francesco Rosí, a quem o festival concedeu um Leão de Ouro de carreira, e comentarios sobre o filme de Spike Lee para Michael Jackson e de Amos Gitai para o pai, um renomado arquiteto. De pronto, daqui da sala de imprensa do festival ouço o protesto, por assim dizer, de um pequeno grupo de católicos. E o que condenam seus cartazes? Os filmes de Ulrich Seidl e de Marco Bellocchio, este o que vimos hoje aqui no Lido. Já comentei sobre Fé, do austríaco Seidl, no qual uma mulher beata sai para fazer pregação do evangelho de casa em casa até que a volta de um companheiro muçulmano a revolta contra Jesus e ela chicoteia um crucifixo. Estamos na Itália, sede da Igreja, lembrem-se, e o fato do protesto só ocorrer hoje tem muito a ver com a exibição nesta manhã de Bella Addormentata, o ótimo filme de Bellocchio. É um trabalho bem mais ambicioso e complexo do que o de Seidl. O diretor de Vincere e de dramas sociais e políticos como Bom Dia, Noite, se debruça aqui sobre a eutanásia a partir de um caso que comoveu o país entre 1999 e 2009, quando o pai de Eluana Englaro conseguiu o direito na justiça de desligar os aparelhos que mantinham viva sua filha, vítima de um acidente de carro. A bela adormecida do título é, evidentemente, uma ironia.

Bellocchio, no entanto, não faz um filme de investigação ou coisa do gênero. Pelo contrário, toma a história real como pano de fundo para dramatiza-la em quatro tramas paralelas, a central do senador (o ótimo Toni Servillo) que tem de votar a lei de eutanásia e vive crise de consciência, enquanto sua filha se mostra uma católica empenhada em pedir pela vida de Eluana. Mais ainda, pai e filha viveram o drama em casa, com a mãe também em estado terminal. Ve-se igualmente uma atriz (Isabelle Huppert) que cerceou a própria vida e dedica-se a filha em estado de coma e um médico (Pier Giorgio Bellocchio, filho do diretor) que tenta recuperar uma drogada suicida. Basta para mexer com os nervos dos católicos? Bellocchio ainda vai mais longe, colocando o poder e a Itália na berlinda, em cenas sensacionais como a dos senadores confabulando no banho de piscina como a moda dos antigos romanos, e sendo psicanalizados pelo médico local.

A coletiva de imprensa, claro, rendeu. Bellocchio se esforçou para deixar seu filme fora do escopo da discussão política, preferindo a questão humana do contexto. Mas a certa altura, não segurou: “não quis rir dos políticos, mas mostrar seu desespero, pois eles não sabem para onde ir, estão perdidos”. Arrancou aplausos quando apontou que há muitos insanos na política, uma falta de humanidade endêmica. ¬Por isso o personagem do médico é também uma espécie de consciência ali, que como diz, é obrigado a dar remédios aos deputados e senadores, “porque eles são muito chatos”. É um belo e forte filme, que precisará de um presidente de júri com coragem e discernimento para bancar um premio principal, a que o americano Michael Mann talvez não corresponda.

Vale comentar ainda desses dois últimos dias outros tres bons, senão ótimos filmes. O francês Olivier Assayas, de Carlos, trouxe sua visão pós-Maio de 68, logo em seguida na verdade, ano 1971, com um jovem protagonista em dúvida entre estudar pintura ou continuar na luta política estudantil. Na verdade, trata-se da transformação de todo um período, da passagem da ingenuidade juvenil ao mundo adulto. Muito a dizer aos dias de hoje. Já Valeria Sarmiento, a viúva e montadora dos filmes do franco-chileno Raoul Ruiz trouxe o último trabalho do cineasta, apenas iniciado por ele e completado por ela, chamado Linhas de Wellington. Para nós, o projeto interessa bastante. Mostra o confronto entre os franceses de Napoleão e os portugueses, que tendo os ingleses como aliados, e comandados pelo general do título, impediram a chegada do inimigo até Lisboa, e portanto ao mar, o que interessava como estratégia de guerra. E onde estava o imperador português neste momento? Já havia escapado com a família real para o Brasil.

Por fim, talvez o filme mais porrada até agora, me desculpem a expressão, o que não tem nada a ver com a literalidade no filme de Takeshi Kitano, mais uma vez as voltas com a yakusa em Outrageous Beyond. Falo na verdade da trama barra pesada de Pietá, título poético para o filme do coreano Kim Ki-duk. Por alguma razão os coreanos nutrem algum tipo de interesse pelas mães coragem, cujo instinto de proteção a cria supera qualquer limite. Lembrem de Mother, e por que não da avó de Poesia, imbuida da mesma força para amar mas também condenar o neto. Aqui um jovem que cobra dinheiro em favor de um agiota leva suas vitimas a acidentes como perder a mão ou uma perna para ganhar o seguro. Surge-lhe um dia uma mulher dizendo ser sua mãe, que vai tentar reaver algum carinho perdido mas também uma cobrança do passado. E haja confronto. Um filme para nem todos os publicos, como os que abandonaram a sal fizeram crer.

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