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Glorias e outras chicas de montón!

por Orlando Margarido — publicado 10/02/2013 17h45, última modificação 10/02/2013 17h45

Berlim – A Berlinale por vezes é sutil no seu recorte de seleção, procurando costurar algum tema entre os filmes que apresenta. Já falei em post anterior como Promised Land de Gus Van Sant forma um complemento interessante com o russo A Long and Happy Life, mesmo nos títulos que sugerem claro a felicidade plena, um lugar, um território ao menos para ela. E quero dizer que cada vez gosto mais do russo, pois fui recuperar no site do festival a coletiva de imprensa que havia perdido e ele diz algo muito interessante sobre ter tomado o formato clássico do western para adapta-lo ao universo do vilarejo ermo onde se passa a trama. E, claro, o protagonista que termina solitário depois de entrar na força coletiva de mudança e ser então abandonado por ela. O filme também é muito bonito em sua composição visual, com as casas desgastadas pelo tempo ao lado do rio que corre barulhento. E a construção de um galinheiro que será cenário decisivo ao final.
Mas queria falar de um outro tema em comum que, ao contrário, não preza pela sutileza. Os três filmes da competição vistos entre ontem e hoje são protagonizados por mulheres em condições, digamos, peculiares. E já explico em seguida esse peculiar. Só que também assisti ontem de tarde ao filme de Bruno Barreto, Você Nunca Disse Eu Te Amo, presente na seleção do Panorama, sobre o amor homossexual entre a arquiteta Lota Macedo Soares e a poeta americana Elisabeth Bishop, quando esta veio ao Rio de Janeiro nos anos 50 em busca de inspiração para retomar seu ofício e ali ficou. Dizer que o filme é correto, digno em sua apreensão do romance, pode parecer neutro, sem risco, mas é isso que o filme é. Não corre riscos. Prefere ser equilibrado e deixar as oscilações para as situações e o caráter das personagens. Nossa Glória, a Pires, dá seu bom espetáculo de sempre frente as câmeras e faz uma Lote esquentadona, bruta mas decidida, definindo a atuação por Bishop, sensível e melancólica também na boa interpretação de Miranda Otto, que no entanto segurará a onda no final do relacionamento. Lota se matou e Bishop sobreviveu a ela por mais de uma década. Tinha a impressão de que ambas haviam morado em Ouro Preto por um bom tempo, no que no filme se torna só uma visita. Ali Lota se inspira na lua para criar a iluminação do Aterro do Flamengo, sua obra mais importante, e disto Bishop extrai um poema que dá título internacional ao filme, Reaching to the Moon. Não é a poesia a chave buscada aqui, mas a do relacionamento. São detalhes para uma produção bem cuidada, eficiente para o período de um Rio ainda glamuroso. Lota é filha da elite local, mora numa casa ainda existente em Petrópolis, projeto de Sergio Bernardes, onde convivem amigos como Carlos Lacerda. Há um contexto político efervescente, pré-golpe e se não aprofunda, ajuda a sublinhar as transformações na vida das duas. Enfim, o filme vale por um momento sofisticado, quando se projetava alguma modernidade, que nem está tão distante assim.
Foi dessa experiência que mergulhamos em seguida, eu e mais alguns jornalistas brasileiros, na proposta excêntrica, para dizer o mínimo, do competidor canadense de lingua francesa Vic + Flo on Vu un Ours. O título, na tradução Vic e Flo viram o Urso, remete a uma sentença de cunho infantil, e nada mais distante do que uma brincadeira de criança aqui. Novamente, duas lésbicas em cena. Uma delas chega na casa de um velho em estado vegetativo proclamando-se sua sobrinha e ali se instala. Logo mais chega sua namorada, interpretada por Romane Bohringer. A vida das duas é sistematicamente vigiada por um agente público. Ficamos sabendo que sairam da prisão, mas não o motivo. Vem então a vingança elaborada por uma perseguidora da personagem de Romane. Não há esperança, nem segunda chance, nesse drama de Denis Coté. Fiquei pensando na sua intenção para além de simplesmente nos falar da desgraça do mundo, mais infeliz para alguns ainda, ou mesmo na condenação dessas duas mulheres ao fim trágico. Quando parece ser esta a intenção, há um recurso espiritual que parece desgovernar um tanto nossas idéias. O que não é mal de todo, considerando os filmes na maioria mornos por aqui.
Não é o caso do ótimo Gloria. Sim, é o título do competidor chileno. No geral, me parece, foi a produção que mais arrancou aplausos e comentários do jornalistas até agora. Se você pensou na Gloria de John Cassavetes não se desapontará, mas apenas numa rápida citação muito bem humorada. De resto, não há semelhança. A Gloria de Sebastian Lelio, que fez Navidade e O Ano do Tigre, é uma quase sessentona aprendendo a lidar com as perdas da idade, dos olhos que já não enxergam bem, aos filhos que se vão. Mas também de encontros. Divorciada, frequenta bailes e ali encontra um par que lhe parece a felicidade. Só que Rodolfo não sabe lidar com as filhas de um ex-casamento e abandona Gloria ao primeiro chamado delas. É dessa vida já numa idade em que tudo parece desaparecer que o filme nos oferece com uma delicadeza e bom humor raro. E também sexo, nudez, raro no cinema que se volta a terceira idade. Não seria o mesmo sem a presença da atriz Paulina Garcia, estupenda como Gloria. Amanhã devo entrevistar a atriz e o diretor e conto mais de uma produção dos Larraín, Pablo e seu irmão, que também contextualiza o Chile atual dos protestos estudantis.
Por fim, e por tudo isso digo peculiar, vimos ainda mais uma versão para A Religiosa de Diderot. Não é apenas um filme de qualidade francês, embora também o seja, mas gostei muito do modo como o diretor Guillaume Nicloux acompanha o sofrimento da adolescente sem vocação obrigada pela família a um convento por questões financeiras mas principalmente um segredo de seu nascimento. Suzanne primeiro passa o pão que uma madre sádica amassa com requintes de crueldade e então segue para outra superiora que agora requisita... seus carinhos! E não é ninguém menos que Isabelle Huppert em mais um papel que preza sua invulgar vocação polêmica. Não conheço o livro de Diderot, mas surge ao menos no filme uma noção contemporânea óbvia com a pedofilia no meio religioso. Mas ainda que não seja para tratar do tema diretamente, temos a idéia do horror da condenação de alguém aquilo que não deseja. São bons requisitos a se pensar pelo cinema, que agora começa a produzir melhor equação na Berlinale.

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