Você está aqui: Página Inicial / Blogs / Blog do Orlando Margarido / Filmes acertados para um Brasil errado

Cultura

47 Festival de Brasília

Filmes acertados para um Brasil errado

por Orlando Margarido — publicado 19/09/2014 19h46
Os dois primeiros e bons competidores e suas visões realistas e distópicas do País

 

Juntos, os dois primeiros longas-metragens que abriram a competição oficial podem ser tomados como uma visão de síntese do Brasil como sociedade complexa, injusta, conflituosa, que ainda tem muito a questionar e corrigir. Noção óbvia? pode ser, mas depende de como se trabalha esse painel de inúmeros aspectos e o apresenta ao espectador. Nesse sentido, os filmes não facilitam nem um pouco o caminho para quem está disposto a entender o grau dos problemas enfrentados, ou seja, nada de simplismos. Curioso é que as propostas chegam em chaves e registros diferentes, um focado em tema único e outro mais amplo, assumindo os riscos da ambição.
O primeiro é Sem Pena, documentário de Eugenio Puppo sobre a engrenagem equivocada, lerda e, paradoxalmente, injusta do sistema judiciário brasileiro. Dessa corrente mal azeitada o diretor tira a parcela mais sofrida, aquela que é vitimada por ser também a mais frágil e que deveria, ao contrario, ser respeitada e reconhecida em primeiro plano, os detentos ou ex-detentos que amargam a prisão muitas vezes além do tempo devido. E o faz pelo dispositivo tradicional de entrevistas, com os próprios, seus familiares, advogados, juristas e defensores de direitos humanos, mas com um recurso definidor. Todos são apenas ouvidos em off, sem que seus rostos surjam na tela, exceção a uma audiência de uma senhora acusada de ter drogas em casa em que a clara amostragem da situação faz justamente evidenciar a precariedade e o sintoma burocrático e kafkiano que toma todo o universo judiciário. Ao revelar a face dos entrevistados apenas ao final, junto aos créditos, Puppo evita o formato aborrecido das ditas "cabeças-falantes"", mas também nos cria o incômodo de não fixarmos um tipo, um estereótipo e atribuirmos juízo, valor,  a quem fala. Enfim, como Puppo confirmou no debate, a aparência não deveria servir de intermediário entre nós, espectadores e seus réus e especialistas.
Mas esta é a forma do filme, uma escolha do diretor para fugir do convencional, vá lá, no que está em seu direito e deve, e parece ter incomodado a alguns. Não a mim nem a platéia do Cine Brasilia, reconhecidamente jovem e politizada, que ovacionou o filme ao final como poucas vezes vi por aqui. O essencial, no entanto, é que seu filme é um exame acurado e chocante da justiça pátria, em que um preso que se diz inocente cumpre sua pena, mas náo consegue ganhar um benefício de redução porque as varas responsáveis nao se comunicam, ou se ganha o benefício, este chega quando o detento já foi libertado. Caso de absurdo para Ionescu tratar, mas que não parece abalar nossas autoridades, seguidores parece da literatura de Kafka. Justiça seja feita a Puppo, que toca seu filme há cinco anos e alcança resultado admirável, mas também a parceria com o Instituto de Defesa do Direito de Defesa, que se envolveu desde o início com o filme, na figura de Marina Dias, ex-presidente e filha de José Carlos Dias, e o atual responsável Augusto Arruda Botelho. Com o respeitado nome do instituto, Puppo teve acesso a locais e pessoas que para muitos surgirão inéditos e reveladores. Seu filme vem se somar em boa hora a um recente filão de trabalhos preocupados com o tema, como os de Maria Augusta Ramos e Aly Muritiba.
Se se pode conferir ao documentário de Puppo um viés realista, o mesmo não se pode dizer de Brasil S/A, do pernambucano Marcelo Pedroso. Aqui o registro é francamente alegórico, fantástico por vezes, operístico na maior parte, mas sempre procurando surpreender pelo inusitado de suas situações. Essas são fragmentadas, sem uma trama definida, mas que ao final formarão um painel crítico do progresso desregrado do país que a tudo desmantela ou faz surgir equívocos ao poucos aceitos e acoplados ao cotidiano. Simbólicos disso são sempre as máquinas, seja a colheitadeira que substituirá o trabalho braçal, as escavadeiras que parecem monstros destrutivos e com vida própria, caminhões como aqueles tipo cegonha que retiram os carros do congestionamento e seguem dando mais conforto ao motorista. Sob a égide de uma bandeira nacional onde desaparece o círculo de ordem e progresso, Pedroso imagina seu território de distopia, onde o homem, e há um protagonista impassível que a tudo acata, apenas se junta a linha de produção como mais uma das ferramentas. A citação do São Paulo S/A de Luis Sérgio Person também é inevitável e ocorreu durante o debate hoje de manhã do filme, na comparação que Pedroso fez na sequência entre aquele momento desenvolvimentista de JK e a atualidade em que outra onda econômica faz crer num milagre brasileiro. O diretor acredita que tem que se relativizar um crescimento baseado, por exemplo, numa energia já ultrapassada como o petróleo. Seu filme por vezes acentua por demais uma mensagem e sintomas óbvios, como a religiosidade, e alguns episódios são mais fortes que outros. Mas no geral é contundente e instiga a uma crítica do que está posto. Ele e Puppo sabem que seus filmes não podem reorientar a roda do mundo, mas já conseguiriam muito se despertassem  uma dúvida sobre o redor. Como cinema e proposta, é bastante, e o festival fez bonito logo no início ao cacifa-los.