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Cultura

Festival de Cannes

Estamos entre o olhar eurocêntrico e o hollywoodiano?

por Orlando Margarido — publicado 24/05/2013 12h45, última modificação 29/05/2013 11h24
Com um juri presidido por Steven Spielberg, algum competidor americano sairá por certo premiado em Cannes
Divulgação
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The Immigrant, de James Gray, não é uma decepção de todo, mas não chega a estatura de seus filmes anteriores como Odessa e Amantes

A Le Film Français cobriu de Palmas, o símbolo máximo na votação de seus convidados, o filme de Kechiche, embora Le Figaro não tenha gostado e Cahiers du Cinema sido mais equilibrada. Compreensível que na tradição os críticos franceses ali presentes tenham sido seduzidos pela proposta sofisticada de La Vie d"Adèle, pois o que não falta no filme são longas conversações e, como se sabe, o francês adora uma "bavardage". Com menos entusiasmo reagiram os americanos no quadro da Screen, outra das publicações que circula diariamente aqui em Cannes com o ranking. Em compensação coloca lá em cima os Coen, com Inside Llewis, e derruba, para meu espanto, La Grande Bellezza. Creio que tendem a superficializar o filme de Sorrentino como apenas uma homenagem a Fellini, pois Michael Mann mostrou que seus compatriotas pouco sabem ou querem saber da situação da Itália atual, esse declínio frente a alta cultura, na politica, na sociedade em geral, que esta na Bella Addormentata de Bellocchio, concorrente injustiçado de Veneza do ano passado. Temo haver repeteco agora com Sorrentino.

Mas aí ficamos na velha ladainha entre o olhar eurocentrico e o hollywoodiano? Será? No fim das contas, essas avaliações apenas servem para aumentar a expectativa da Palmarés, que acontece domingo. Mas não se pode esquecer que temos um júri presidido por Spielberg e algum competidor americano sairá por certo premiado. Apostaria não ser James Gray. Esta manhã vimos The Immigrant, e se não é uma decepção de todo, por certo não chega a estatura de seus filmes anteriores como Odessa e Amantes. Gray assume o melodrama para dar o seu contexto da imigração nos anos 20, dos europeus que chegavam a Nova York para "fazer a América", inclusive sua família, de origem russa.

Marion Cotillard é quase um desperdício de beleza e encanto como a jovem polonesa que desembarca na ilha de Ellis com a irmã, esta levada de imediato a quarentena por suspeita de tuberculose. Ewa, o personagem de Marion, é salva da deportação pelo "empresário" de Joaquin Phoenix, ator preferido de Gray, que comanda um espetáculo de variedades com garotas, fachada para prostituição. Ewa precisa de dinheiro, e claro... Há o primo do cafetão, um mágico que apresentará outro caminho a jovem, e os dois brigarão pelo amor da bela. Mas como aceitar tanta ingenuidade desta, so por ser... Ewa? É um desafio para o espectador, e não é pelo fato de estarmos num melodrama que incomoda. Há mesmo cenas bonitas, como a confissão de Ewa. Mas Gray se esforçou bem menos desta vez para convencer no universo dos imigrantes que ele sempre narrou com conhecimento.

É próximo deste tom impassível o problema da nova adaptação de Michael Kohlhaas. O romance de Heinrich von Kleist já foi para o cinema algumas vezes e a versão mais famosa é de Volker Schlondorff, que desconheço. Há muito mais conflito de consciência e de demonstração de poder no livro, no entanto, do que nos mostra o diretor francês Arnaud des Pallières. O filme se mantém na mesma perspectiva de autocontrole do protagonista homônimo frente as injustiças que o acometem no século 16 na França da princesa de Angouleme e rainha de Navarra, cenário para o qual o cineasta transferiu a história. Mads Mikkelsen, vencedor do prêmio de ator no ano passado por A Caça, é esse mercador de cavalos que tem sua licença cassada, a mulher morta e é obrigado a deixar a propriedade e partir com a filha pequena. Kohlhaas vai formar um bando para se insurgir contra o autoritarismo de um barão e o destrato da princesa, em quem confiará para depois ser traído.

Há um retrato interessante da questão dos princípios de um homem da terra e os valores sem ética dos governantes, e isso , claro, Pallières quer nos dizer algo do cenário atual. Mas ao custo de uma trama sempre monocórdia, sem grandes momentos de embate ou tensão, ou um aprofundamento dos personagens, em especial Kohlhaas. Acho cada vez mais incompreensível o esforço que o festival fez esse ano para juntar filmes medianos, sera que não havia nada melhor? Por vezes vemos filmes interessantes por aqui nas seções paralelas, e claro, vem a pergunta do porquê não integrarem a competição. Posso falar de Claire Denins, Sebastian Silva e alguns mais. Em próximos posts, faço um balanço do que vi fora  da competição oficial, que se encerra amanhã com Polanski. Olha aí um polonês que emigrou para fugir da guerra, como as irmãs de Gray.