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Festas de família

por Orlando Margarido — publicado 16/02/2012 17h24, última modificação 16/02/2012 17h24

Berlim – A percepção de que filmes sobre familias marcadas por algum tipo de crise ou ruptura vinham dando as cartas aqui na Berlinale, ao menos na competitiva, já havia me ocorrido ontem. Mas hoje mais duas provas tornaram-na certeza. Começou com Aujourd’hui, filme francês levado no Senegal sobre jovem que fica sabendo que vai morrer em breve e passa a se despedir de todos até voltar para a mulher e os filhos; Extremely Loud and Incredibly Close é a tragédia do 11 de setembro se abatendo sobre Sandra Bullock e seu filho criança, quando Tom Hanks, o pai, morre nas torres. A Moi Seule, outro francês, narra o rapto de uma menina por um homem , que a mantém presa até a adolescência. O casamento dos pais, claro, não se aguenta e desmorona. Se a receita da família unida não chega a desandar de todo, no filme de Billy Bob Thorton, Jane Mansfield’s Car, ela é continuamente testada com a chegada de um visitante não muito bem-vindo e as rusgas habituais da casa. Mais grave é a depressão que sacrifica décadas da vida da matriarca do título alemão Home for the Weekend e retorna com resultado definitivo quando marido e filhos não a apoiam. Mesmo em Tabu ou White Deer Plain, concorrentes português e chinês respectivamente, algo vem desmantelar a aparente felicidade, seja o amor errante ou as novas cartas do poder. E por que não lembrar um bom thriller que vimos fora da competição, o inglês Shadow Dancer, talvez um retrato do clã mais unido e que se apóia, mas que não resiste as cobranças de engajamento do IRA, o exército de libertação irlandês.
Querem mais? Pois hoje pela manhã, já prestes a se encerrar a competição (temos apenas mais dois filmes) foi dose dupla de famílias levadas a algum grau de pressão e limite. Em Just the Wind, ótimo concorrente húngaro, o grau é máximo numa história real dramatizada. Trata-se de um episódio de assassinato em massa perpetrado contra um núcleo de romenos estabelecidos num local miserável e desolado na Hungria. O diretor Bence Filegauf pinça o cotidiano de uma dessas famílias lideradas por uma mãe que faz trabalhos de limpeza, enquanto o pai inválido passa o tempo dormindo, a filha adolescente se esforça em frequentar a escola e seu irmão menor perambula pelas redondezas, conversando e invadindo residências de clãs já assassinados. Como um letreiro no início antecipa todo o acontecimento, o recurso aqui é criar a tensão e a angústia do momento em que a explosão de ódio vai se dar. E este clima é quase insuportável ao espectador, em muito baseado em detalhes e poucas mas significativas situações de confronto social e racial. O drama veio para chacoalhar uma morna competição nos últimosdias.
Não chega a ser o caso de outro alemão, Gnade, Mercy na versão em inglês, mas a situação de misericórdia a que alude o título tem sua força para incomodar. Um casal em crise e seu filho pré-adolescente se mudam da Alemanha para uma cidade longínqua da Noruega, à beira do Ártico, em função de um novo trabalho do marido. Trata-se de uma região peculiar, que não tem sol durante o inverno e não anoitece durante o verão. A mulher é enfermeira no hospital local quando na volta de um plantão sente que seu carro bateu em algo. Reluta mas vai para casa e só no dia seguinte descobre-se tratar-se de uma adolescente que saía de uma festa. São, portanto, duas e não só uma família destruída. A culpa cai como a noite eterna sobre o casal. Decidem não contar nada a ninguém. E a vida continua? Difícil, pois a consciência vai apertando até o desespero. Da crise representada pela estação da neve se chegará a uma possível convivência no dia que, naqueles confins gelados, é possível de verão.
Poderia forçar um pouco mais a tese das famílias desfeitas com A Royal Affair, mas aqui parece ser o caso de estender a toda um núcleo monárquico, se não a todo um país. No caso, a Dinamarca. O filme de época produzido pela empresa de Lars Von Trier e dirigido por Nicolaj Arcel recupera o momento em que se casam o rei Frederik VI e sua jovem escolhida, a inglesa Carolina Matilda. Quando esta chega a Copenhague, é o momento também que o jovem rei, considerado extravagante e perturbado, ganha a ajuda de um médico de idéias liberais, partidário do iluminismo. O papel é de Mads Mikkelsen, astro local que fez Fúria de Titãs. Já matou? Depois de conquistar a confiança do rei e mudar a cena conservadora do palácio, ela cai direto na cama da rainha, desconsolada por não poder contar com o interesse do monarca. Não há nada muito novo nesse painel de poder, intriga e amor palacianos, mas o filme mantém seu pique nos desdobramentos e charme do trio central e a síntese de um período e de um país que nãos se vê constantemente no cinema. Amanhã, já perto do meio dia, será possível fazer um balanço da competição . Só temos o filme de artes marciais de Tsui Hark, que verei ainda hoje, e uma co-produção franco-africana, Rebelle, primeiro da manhã. Volto para as últimas, até!

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