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Cultura

71 Festival de Veneza

Farsa e contexto real na pauta do dia

por Orlando Margarido — publicado 29/08/2014 14h02
Aplausos para um retorno decepcionante de Peter Bogdanovich e retratos elaborados da realidade

E Peter Bogdanovich hein? Ver anunciado para cá um novo filme desse que é um dos últimos renovadores do cinema americano nos anos 70 ainda em atividade, bem pouca diga-se, sugere expectativa. She’s Funny That Way, o novo trabalho do diretor depois de 13 anos de um projeto para TV, pode não ser um fiasco, longe disso, mas me deixou muito desapontado. Só a mim pelo jeito, pois a platéia de jornalistas ao final da sessão no início desta tarde aplaudiu freneticamente e riu todo o tempo da manjada fórmula de encontros e desencontros casuais entre maridos, esposas, amantes… O diretor de A Última Sessão de Cinema, com Cybill Shepherd que reaparece matrona aqui, propõe um tom de farsa comica e romantica ao modo de Lubitsch e outros realizadores da era dourada de Hollywood que sabiam dar o ponto certo a receita. O bom ponto de partida justificaria melhor elaboração na trama de uma jovem atriz (Imogen Poots) que reconta sua história como garota de programa e o início no teatro, quando se envolve com um diretor conquistador (Owen Wilson) e sua confusa trupe.

Na coletiva, mais interessante que o filme, Bogdanovich reconheceu  a dificuldade de chegar a um bom cozimento nas comédias, mais do que nos dramas, e citou seu filme de 1972, What s Up Doc?, quando criou uma piada fracassada e depois a reformulou com sucesso. No caso agora, me parece menos um problema de tom e mais de repetição exaustiva das situações, o histrionismo de parte do elenco, e Jennifer Aniston está irritante, e da fraqueza dos diálogos. Um quesito em que Woody Allen é mestre e a ciranda de acontecimentos nos leva a uma comparação inevitável com seu cinema.

Toda vez que se anuncia um filme americano a um festival, especialmente na competição, e o de Bogdanovich está fora dela em Veneza, fico pensando o que pode trazer de novidade a um painel quase sempre diverso e ao menos de boa discussão. Daí ser 99 Homes uma exceção as produções de Hollywood que costumam entrar na concorrencia dos premios para atender a interesses dos produtores. É certo que o filme de Ramin Bahrani, americano de origem iraniana, tem Andrew Garfield, o atual Homem-Aranha, como protagonista e isso fez sucesso por aqui hoje no Lido. Mas também o filme, uma abordagem da crise dos Estados Unidos na última década que talvez não corresse o risco na mão de outro diretor. Garfield é o pai solteiro e desempregado que perde a casa onde vive com a mãe na Flórida durante o período da quebra financeira, quando não se conseguia pagar as prestações e os imóveis eram transferidos ao governo. No meio dessa tragédia, e como em outras, surgem os espertalhões que lucram com a miséria alheia e Michael Shannon faz o papel do corretor que intermedia o negócio de venda das casas para suprir a hipoteca. Sem outra alternativa, Garfield vai trabalhar para seu próprio algoz, gerando a culpa de consciência esperada. Esse Fausto contemporâneo, como se lembrou na coletiva de imprensa hoje, prospera e pagará o preço por isso. Há certo esquematismo, e o destino esperado para o jovem, mas ainda sim nao tem sido uma representação comum no cinema americano sobre o assunto. As vezes vale repisar o básico quando o momento requer uma revisão urgente.

É um pouco o contrário o que acontece com Anime Nere, ou almas negras, o primeiro italiano da competição a ser exibido. Também muito aplaudido, e a prata da casa nem sempre, na verdade com raridade, costuma ser polida pelos compatriotas. Digo que ocorre aqui o oposto do filme americano porque temos o velho e sempre repassado tema da máfia. Só que o diretor Francesco Munzi segue um caminho menos trivial e consegue um resultado impactante ao adaptar romance local. Seu drama põe sim grupos rivais da Calábria em cena, mas trabalha por assim dizer no cerne de uma das famílias, os Carbone, dividida entre tres irmãos, dois deles baseados em Milão. Um deles não se chama Rocco por acaso, numa visão da pobreza e da riqueza que mudou de conceito desde Visconti. O outro, o terceiro, ficou no pequeno povoado decadente a pastorear ovelhas. Não quer saber da guerra dos clãs, e para isso se fortifica com as cinzas em torno de um santo que colhe e dilui na água de beber, como mostra na realidade de um velho o diretor Flammartino em Quatro Volte. É uma tradição local, explicou Munzi. O único irmão que ali ficou é obrigado a rever sua postura quando o filho o desafia, pega uma arma e dá início a um novo confronto. Códigos, honra, tudo que se sabe que a máfia leva a sério, estão aqui. Mas há uma elaboração grandiosa no filme quanto ao dialeto calabres com que se tratam os membros da família. Se não é novo, o filme por certo encontra uma brecha em tema sempre presente por aqui.