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Era uma Vez... na Berlinale!

por Orlando Margarido — publicado 07/02/2013 21h40, última modificação 07/02/2013 21h40

Berlim – Cá estou eu mais uma vez na temperatura média de zero grau para cobrir o primeiro festival internacional decisivo do calendário anual. Depois, vocês sabem, vem Cannes e Veneza. Tenho especial xodó pela mostra italiana porque foi onde fiz minha estréia entre as grandes competições do cinema no mundo, ainda quando estava na Gazeta Mercantil em 1999. Na época, Daniel Piza, que nos deixou tão precocemente, pediu para escolher entre Berlim e Veneza, pois a França estava reservada para Marcelo Rezende, nosso correspondente. Pensei no frio europeu de fevereiro, e apesar da mostra alemã ter especial atenção aos brasileiros, basta lembrar Fernanda Montenegro e mais recentemente Tropa de Elite, eu escolhi o verão Adriático. Os colegas também lembrarão da boa comida, e não nego que é uma vantagem e tanto ter a mesa italiana esperando após bons (e maus) filmes. Veneza passou por um período difícil com Marco Muller a frente, com sua obsessão notória pelo cinema asiático. Desde o ano passado, no entanto, é Alberto Barbera quem dá as cartas novamente, o mesmo que dirigia a Mostra di Cinema quando estive lá nos primeiros anos. Embora a produção brasileira ainda não tenha voltado ao Lido para marcar presença, a seleção melhorou consideravelmente.

Tudo isso para dizer que nos meus anos de cobertura da Berlinale descobri um festival muito diferente dos demais, mais calmo para se trabalhar, ver filmes, e com um clima (não temperatura!) gostoso. Aqui se aposta muito mais nos novos realizadores e nas descobertas. Lembre-se que Asghar Farhadi iniciou aqui sua ascensão ao reconhecimento mundial, com filmes como Procurando Elly, que em 2009 lhe deu o prêmio de melhor diretor, e por fim o Urso de Ouro por A Separação há dois anos. Aliás, este foi o preferido da votação da Abraccine, a associação de críticos da qual faço parte, e também, se não me engano, da Accirs, a associação gaúcha. Quem sabe temos um novo diretor tão interessante a surgir nesta edição, embora entre os iranianos todos por aqui estão mais interessados em ver o novo filme de Jafar Panahi, ainda em prisão domiciliar e proibido de deixar seu país. O Irã, aliás, praticamente dominou a coletiva do júri hoje, pois o integra a diretora e artista plástica Shirin Neshat, que há quatro anos levou o prêmio de direção em Veneza por Women Withou Men. Ela lamentou a condição de censura absurda imposta ao colega, ao que a Berlinale enfatiza há dois anos com uma cadeira vazia com o nome de Panahi, esperando que um dia ele possa voltar ao festival.

É um júri de mulheres, quatro contra três homens, como fizeram questão de lembrar por aqui. Mas a presidência é masculina. É o chinês Wong Kar Wai quem dará as cartas na hora final, como costuma ser nesses casos. Hoje ele teve dia de grande mestre do cinema que é, ou costuma ser considerado. Surgiu duas vezes na sala de conferência com seus indefectíveis óculos para falar de como deve comandar seus colegas jurados, mas principalmente para responder perguntas sobre The Grandmaster, seu novo filme que abre hoje oficialmente a Berlinale. Fora de competição, claro. E o que temos de Kar Wai? Um filme suntuosissimo, como costuma ser a maioria de sua produção, estilizado até a medula, mas com uma história épica e dramática de nos deixar imóveis até o final. Marco Muller seguramente babaria pelo filme, porque também há muita ação baseada nas artes marciais, o popular kung fu. O interessante é como Kar-Wai aborda o universo, que a principio, quando li sobre o filme, parecia mais tema de compatriotas que andam escorregando muito na seriedade do cinema. Zhang Yimou, para lembrar um. No caso, Kar-Wai foi buscar a legenda do instrutor de Bruce Lee e tantos outras feras do kung fu. É Yip Man, interpretado por Tony Leung. O quanto ele romanceia sua trajetória é difícil saber, mas a trama cobre as décadas de ouro do lutador, morto em 1972, acompanhando também a história da China, com seus clãs e as diversas modalidades da arte marcial. Nem tanto ele, mas a filha de um desses clãs (a bela Ziyi Zhang) lidera o drama como uma eximia lutadora ensinada por seu pai que terá uma relação de competição e amor que nunca se estabelece de fato com Man. Sim, é uma história de amor também, com direito as sutilezas e subentendidos que Kar-Wai sabe fazer. Ele bebe diretamente em Sergio Leone, de Era uma Vez no Oeste, com os dois amantes se separando numa rua vazia, guardados pelo olhar de um cão. Discutimos, eu e Luis Carlos Merten, a probabilidade de quem não curtir a ação coreografada ao extremo de torcer o nariz ao filme. Inegável, no entanto, o refinamento e a plasticidade que fazem de Kar-Wai um grande mestre. Começou bem. Amanhã vemos o que nos reserva o primeiro filme da competição, o polonês In the Name of..., para logo passarmos ao novo Gus Van Sant, Promised Land. Será que promete? Até!

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