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Entre heróis e anônimos

por Orlando Margarido — publicado 12/08/2012 20h12, última modificação 12/08/2012 20h16

Gramado – Boa a segunda noite competitiva do festival. Não que os filmes exibidos não mereçam reparos aqui e ali, e é até saudável que se proponham não como objetos fechados a uma análise mais profunda e estejam na tela também para um debate franco. Pois ao juntar os filmes com a conversa que se segue no dia seguinte com público e imprensa o resultado cresceu muito. Na primeira rodada tivemos o concorrente latino Artigas - La Redota, que na sua origem híbrida uruguaia e brasileira já cria um atrito muito interessante ao espectador mas pelo jeito não a Ancine. Isso porque a agência de cinema brasileiro tem negado o certificado de co-produção ao filme de César Charlone que estreou na Mostra São Paulo. Chega a ser difícil lembrar que Charlone é uruguaio tamanha é sua folha corrida de préstimos como diretor de fotografia no Brasil. Basta lembrar o crédito em Cidade de Deus. Com os dois pés fincados aqui, ele é figura querida e talentosa do nosso cinema, qualidades que levou a direção primeiramente em O Banheiro do Papa, quando voltou a filmar em seu país. Artigas é o herói da luta contra a dominação espanhola no Uruguai, um personagem que conhecemos por certo menos que Simon Bolívar e José Martí, líderes da mesma luta em boa parte da América Latina. Eles integram, aliás, a mesma série realizada para televisão por um produtor espanhol de que o filme de Charlone faz parte. Do Brasil, teremos a contribuição do pernambucano Marcelo Gomes com Tiradentes.
Mas então é um produto de TV? Não no que isso pode revelar como pejorativo. Artigas, o filme de base ficcional, tem um cuidado de produção, um certo embrulho de qualidade, digamos, que remete a uma produção clássica televisiva. Mas aí temos uma proposta de abordagem e uma narrativa que distorce os dispositivos comuns ao universo da TV que faz toda a diferença. Charlone não se debruça diretamente sobre seu herói, termo que obviamente é questionado todo o tempo, mas sim lança mão da trajetória do pintor Juan Manuel Blanes (1830-1901) ao preparar durante nove meses o retrato oficial de Artigas a pedido do novo governo instalado. Obrigado a mudar sua visão de uma figura histórica com seus defeitos para um herói pronto e irretocável, ele se depara com uma documentação reveladora do caso de um espanhol condenado e enviado pela corte espanhola para assassinar Artigas em troca da comutação da pena. O filme se transfere então para uma espécie de suspense de guerra, quando o visitante chega ao acampamento liderado pelo revolucionário e passa a relativizar o olhar condenador sobre Artigas.
Nessa conjunção de momentos de uma mesma época, saltam temas como traição colocados em evidência, assim como o espelhamento na construção de uma figura considerada heroica com sua real condição, como ela é vista pelo governo e por fim pelo desejo do pintor. Difícil, para não dizer complexa, essa viagem de Charlone, que requer atenção e disponibilidade do espectador para se enredar em todas essas ações, mais ainda pela duração um tanto alongada do filme. Mas é uma viagem fascinante e recompensadora.
Também pode ser assim, mas numa chave ainda mais restritiva, a proposta do segundo longa da noite, o brasileiro Super Nada, da dupla Rubens Rewald e Rossana Foglia, que conhecemos do bom e menosprezado Corpo. Temos aqui, antes de tudo, um filme muito paulistano, no que quer que isso tenha de positivo e restritivo. Digo por que para mim foi uma identificação de cara aquele protagonista que como ator que não deu certo vive de pequenos expedientes para sobreviver, da dupla de cômicos que integra em pequenas casas de espetáculo ao malabarista de rua que tanto vemos nos cruzamentos de São Paulo. Quem o interpreta é ninguém menos que Marat Descartes, ator talentoso de origem teatral que praticamente adotou o cinema como atividade. E isso para mim também contou muito. Lembrei de seus personagens desde Os Inqulinos, de Bianchi, a Trabalhar Cansa, de Dutra e Rojas ,até o recente Corpo Presente, ainda inédito. São todos tipos de alguma forma pressionados e aterrorizados pela pressão urbana de uma grande metrópole, não importa de onde venham as pressões. Conversei rapidamente com Marat depois do debate e ele me chamou a atenção para o personagem da cidade. Confirmou a semelhança nesse sentido com os papéis anteriores e como esses personagens açodados instigam um intérprete. Ainda mais quem em Super Nada temos o personagem ator e ainda este que viverá um cômico junto ao seu maior ídolo. E quem é este? O dito super-herói do título interpretado pelo cantor Jair Rodrigues, presença inesperada mas intencional para criar um ruído estimulante no filme. Jair, como se sabe, não é ator, ou ao menos não o é desde uma participação esquecida nos tempos da chanchada. E nem o precisa ser, pois seu cômico decadente no filme virou um deboche de si mesmo num daqueles programas de televisão apelativos numa emissora que ele mesmo diz de terceira, quarta... Prato cheio para o cantor, que não esconde a lábia um tanto vulgar, mas de jeitão cativante. E é a ele que Guto, o ator, idolatra e com quem irá tentar um teste para uma vaga no seu programa, enquanto mantém relacionamentos complicados com a mãe (Denise Weinberg), que cuida de sua filha pequena, e a namorada (Clarissa Kiste).
O filme se desenrola entre esses dois polos, o pessoal e o profissional de Guto, e marca o meio com passagens que parecem mortas, como se diz no jargão narrativo, ou seja, em que pouca coisa acontece. Ora, só para quem não percebe como a vida cheia de som e fúria pertence mais ao universo hollywoodiano do que ao real dos tipos anônimos. Guto se apresenta um quase quarentão imaturo e em busca de oportunidades ainda, que está se dando conta do talento limitado, e portanto, não pode esperar grandes arroubos no dia a dia. Além disso, o filme oferece muitas leituras intermediárias, nem sempre claras, poucas vezes ditas, que sugerem mais do que explicitam. Nesse sentido, me parece um trabalho oposto ao que Matheus Souza oferece em seu longa, exibido ontem, no qual se chega quase a uma verborragia, ainda que justificável por estar centrado no universo teen. Nem todos os colegas jornalistas e críticos presentes aqui entraram na proposta da dupla, o que dá mais um bom conceito ao filme, o de dividir opiniões, criar debates, estimular. É a intenção maior, ou assim deveria ser, de um festival que se pretende série e iluminado. Aliás, esqueci de mencionar que entre as mudanças desta 40º edição inclui-se a substituição da curadoria, antes dos crítico José Carlos Avellar e o realizador Sergio Sanz, e agora de um triunvirato formado pelos críticos Rubens Ewald Filho e Marcos Santuário e o ator José Wilker, também um comentarista habitual de cinema. Gostava da visão cuidadosa da dupla anterior, antenada com os festivais internacionais, mas até agora vejo no trio bons acertos. Já posso adiantar que isso inclui o documentário Futuro do Pretérito - Tropicalismo Now!, que Ninho Moraes, o pai da nossa linda e talentosa Alice Braga, realizou em parceria com o Francisco César Filho, o nosso querido Xiquinho, como conhecemos na área. Vi no CineCeará e gostei muito. Vou rever daqui a pouco, porque também o filme faz muito bem aos ouvidos. Até.