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Em Cannes, a postos

por Orlando Margarido — publicado 17/05/2012 11h23, última modificação 17/05/2012 11h32

Cannes – Caros, começo hoje minha cobertura do festival e vocês dirão um tanto atrasado. Mas algumas complicações com minha credencial e o material que tinha que entregar até hoje de manha para a versão impressa da Carta Capital me retardaram. Isso não quer dizer que não acompanhei o melhor (e pior!) do primeiro dia, de fato ontem. Coloco a divisão já de cara entre pior e melhor porque, sim, tivemos as duas qualidades de filme por aqui. As más notícias primeiro. A competição, vocês sabem, abriu com o novo Wes Anderson, Moonrise Kingdom. Não é que seja um filme ruim, mas eu não “entro” no cinema de Anderson, ou ao menos simpatizo com Os Tennenbaums, mas este aqui é repetitivo de seu estilo e muito aborrecido. Como sempre, sua estranheza se expõe por personagens peculiares num universo de fantasia marcadamente retrô e com pitadas de absurdo. Há novamente uma família em cena, agora morando numa ilha distante, e dela faz parte uma garota romântica e sonhadora. Quem se apaixonará por ela é um menino escoteiro e órfão. Ambos fugirão no que acreditam ser uma aventura, para desespero dos pais e um policial, interpretado por Bruce Willis. Há outros bons atores, Frances McDormand e Bill Murray, mas isso pouco faz a diferença a serviço de um molde de cinema que já começa a cansar.
Se este ainda parece uma obra razoável a uma competição como a de Cannes, não é o caso certamente do egípcio Baad El Mawkeaa, ou After the Battle no título internacional, segundo concorrente mostrado ontem à noite. Só a decisão de ter um filme de contornos políticos sobre a recente revolução ocorrida no Egito explica a escolha deste fraco painel das mudanças através da relação de uma jovem moderna e independente com um tipo mais humilde, homem casado que depende de seu cavalo para sobreviver como guia turístico. Em questão, uma mínima discussão do que acontecerá na cena política do país a curto prazo, e mais antigas rivalidades como a posição do homem e da mulher na sociedade egípcia e o forte contraste social. Este e outro filme recém visto no Brasil, Cairo 678, dá conta de um cinema um tanto tradicional e pouco ambicioso, que ainda faz sentir a falta de um mestre do cinema local que foi Youssef Chahine.

Nem dá nem para medir a diferença com De Rouille et D’Os, o novo filme de Jacques Audiard que vimos agora de manhã. Voces se lembram dele? O francês Audiard impressionou Cannes há dois anos com O Profeta, que lhe rendeu o Grande Prêmio do Júri. Agora ele tenta a Palma mais uma vez com um relato dramático muito diferente daquele, mas talvez próximo no que diz respeito a perda de liberdade, que vem com uma cobrança dura da vida. O profeta era o jovem assim tornado na prisão, para onde foi sem saber direito o por que. Agora é a jovem Stephanie que passa por provação, interpretada por uma maravilhosa, ainda que desglamourizada Marion Cotillard. Ela adestra orcas num parque aquático da Riviera francesa quando um incidente a remete para a piscina inconsciente. Acorda no dia seguinte no hospital sem as metades das duas pernas. O filme, no entanto, não a tem como primeira protagonista. Começa com Ali, tipo rude, endurecido pelo cotidiano incerto que tenta criar o filho de cinco anos com bicos de segurança e depois como lutador que já foi. O destino de Ali e Stephanie se cruza numa boate antes do acidente. Ela o procurará depois e a convivência será aprendizado para ambos. A ferrugem e os ossos, indica o titulo. Audiard concentra toda a força do filme no par central e suas diferenças diante dos rearranjos da vida.  Mostra-se um bom diretor de atores, e arrisco que se o filme não se enquadra numa Palma, por certo pode valer um premio ao casal de interpretes, especialmente Cotillard, que já merece seu reconhecimento, e Matthias Schoenaerts.
Apenas uma rápida observação para dois documentários aos quais me dedico na versão impressa de Carta Capital. Woody Allen – a Documentary é mais interessante por nos apresentar o comediante precoce que o realizador foi, cenas raras, como a hilária luta com um canguru num ringue de televisão. Mas melhor é o filme dedicado a Roman Polanski, talvez a primeira aparição para uma conversa deste formato, com tempo necessário para falar da carreira de filmes e da recente liberação da prisão domiciliar, assim como da extradição por conta de um suposto estupro nos Estados Unidos dos anos 70. É impressionante ver, assim em síntese, as tragédias que se abateram sobre o franco-polonês, desde a infância sob o nazismo, seguindo com a morte trágica de Sharon Tate, sua mulher. Mas em seu chalé na Suíça, Polanski se emociona, mas a conversa é simpática e sóbria graças a um bom entrevistados. Não, ele não é jornalista, figura da qual o diretor com razão tem pânico, mas um antigo produtor e colaborador. Espero que possam ver por aí algum dia, até.