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Cultura

2.ª Mostra de Cinema de Gostoso

No cinema, eles não falam sozinhos

por Orlando Margarido — publicado 20/11/2014 17h03, última modificação 20/11/2014 18h24
Na metrópole ou fora dela, filmes conseguem alcançar qualquer plateia, como provam o cativante 'Hoje Eu Quero Voltar sozinho' e 'Dominguinhos' na mostra de Gostoso
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Cena de "Hoje Eu Quero Voltar Sozinho", de Daniel Ribeiro

Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro, ganhou o principal prêmio da 2.ª Mostra de Cinema de Gostoso, encerrada na quarta-feira à noite em animada celebração. Muito colado na votação veio o documentário Dominguinhos, do trio Joaquim Castro, Eduardo Nazarian e Mariana Aydar. A organização concedeu então uma menção honrosa ao filme. Houve ainda empate entre os curtas-metragens Menino do Dente de Ouro, de Rodrigo Sena, e Abraço da Maré, de Victor Ciriaco, ambas produçōes do Rio Grande do Norte.

O filme de Ribeiro prossegue, assim, a sua carreira vitoriosa iniciada na Belinale em fevereiro, com temperaturas abaixo de zero, e encerra seu ciclo de festivais nacionais do ano com calor acima de 35 graus e ótima acolhida da plateia local. No festival alemão, o sensível e eficiente drama sobre a descoberta da sexualidade entre dois garotos fez a tríplice vitória, com o reconhecimento do júri principal, critica e público. Este, aliás, é quem atribui os poucos prêmios do evento de São Miguel do Gostoso, e por isso mesmo vale a pena salientar a empatia com uma plateia com mínima, para não dizer nenhuma, familiaridade com o cinema exibido na tela grande. Em especial, com um filme de temática gay. Foi surpreendente a lotação da sessão com todos os 600 lugares ocupados, além do entorno, ou seja, a areia, também bastante concorrido.

"Dominguinhos"

No caso de Dominguinhos, é mais fácil compreender a ligação do Nordeste com o músico pernambucano, a criação em um ambiente de roça miserável, a perseverança pelo sonho e pela carreira, a temática de sua música. Mas fica a lição de ambos os filmes de que o cinema pode alcançar qualquer plateia, da metrópole ou fora do eixo mais rico do País. Reticência que ocorre a muitos quando se fala sobretudo de cinema brasileiro. A seguir, comento outros destaques que vi por aqui:

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"O Último Cine Drive-In", de Iberê Carvalho

O Último Cine Drive-In

Um desentendimento tirou o filme de Iberê Carvalho do último Festival de Brasília. Mas ali mesmo foi exibido um documentário sobre o tradicional drive-in que funciona no autódromo da cidade. Esse cenário é onde se desenrola a trama agora ficcional e talvez seu maior atrativo. O local está decadente mas o proprietário (Othon Bastos) insiste em exibir filmes de arte para uma minguada plateia, auxiliado por uma jovem projecionista e um empregado. Quando seu filho há muito afastado vem pedir ajuda para a mãe internada no hospital, um acerto de contas entre os dois se impõe. Um desejo da ex-mulher trará a chance da reconciliação. O problema é que todo esse processo se torna um tanto óbvio e a condução dos acontecimentos não faz muito esforço para nos surpreender. Há um fundo assumido de melodrama que se apoia também na clara homenagem ao cinema. Nesse ambiente, surgem cartazes de filmes referentes ao drama, caso de Invasões Bárbaras, com seu tema da doença terminal e do pesadelo de um hospital.

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"Deserto Azul", de Eder Santos

Deserto Azul

De um projeto cinematográfico do artista plástico Eder Santos pode-se esperar certamente uma influência forte da videoarte, sua linguagem preferencial. E o recurso está presente no filme em um contexto adequado à  trama futurista, que empresta Brasília como cenário igualmente pertinente. O problema vem a ser justamente essa trama. Um jovem reflete sobre sua vida desinteressante e sem perspectivas enquanto cumpre um cotidiano igualmente vazio, apoiado por gadgets, viagens com duração de breves minutos e festas. Falará com sua imagem envelhecida para repassar a trajetória. É clara a crítica a um mundo superficial, a uma juventude tomada por inércia e dependente do contato virtual e outras questões longe de pertencer ao futuro. Mas, pelo modo como está explorada, a importância da discussão de um vazio existencial se dilui e expõe as pretensões frágeis do filme.

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"A História da Eternidade", de Camilo Cavalcante

A História da Eternidade

Já havia visto o filme de Camilo Cavalcante no Festival de Paulínia, no qual ganhou o principal prêmio. Havia outra atmosfera agora no telão da praia do Maceió, onde é montada a estrutura ao ar livre, com aquele sertão árido em contraste com o vento e a presença afinal do mar logo ali. Não sei se influenciou o cenário, mas de alguma forma os dramas daquele vilarejo perdido me pareceram mais agudos. O filme abre com um cortejo fúnebre e uma reza. À frente vai um pequeno caixão, que se supõe logo ser de uma criança. Ela é da personagem de Marcela Cartaxo, tomada por uma tristeza de querer esquecer do mundo. Um sanfoneiro cego insistirá para trazê-la de volta à vida.

Na vizinhança, uma senhora de ares matriarcal (Zezita Matos) dá apoio a mãe sofredora enquanto recebe a notícia da visita do neto (Maxwel Nascimento) vindo do sul do País. Por fim, Irandhir Santos, como um artista libertário e epilético, e Claudio Jaborandy, seu irmão rude e violento que o menospreza, entrarão em confronto, mediado pela filha adolescente do segundo que sonha em ver o mar. É uma cena magistral de Irandhir ao som de Fala, cantada por Ney Matogrosso, que desviará o tom até então poético e contido do filme para um caminho duro na construção desses conflitos, numa tragédia anunciada. Capricho na trilha do polonês  Zbigbniew Preisner, dos filmes de Kieslowski, e um belo trabalho entre contenção e explosão. Para se voltar ainda algumas vezes.