Cultura

38ª Mostra

Elas não usam black-tie

por Orlando Margarido — publicado 17/10/2014 13h07, última modificação 17/10/2014 13h07
O início da maratona com os filmes desconhecidos de Marin Karmitz, o poderoso produtor da MK2 que um dia foi realizador engajado

Começou a maratona anual dos cinéfilos em São Paulo. Até dia 29, vocês sabem, a Mostra ocupa a agenda de quem quer conhecer o que se produziu neste último ano, além das homenagens e retrospectivas históricas. A personalidade da vez é Pedro Almodóvar. Mas de alguma forma sempre tivemos acesso a sua produção, isso mesmo pela Mostra, no início da carreira do diretor espanhol, e depois pelo circuito. Mais curioso parece o olhar geral desta edição a uma cinematografia espanhola, pequena como a de Victor Erice, por exemplo, a Buñuel, suas fotos de filmagens e alguns de seus filmes. Temos também o interessante recorte sobre o trabalho do veterano produtor franco-romeno Marin Karmitz. Há muitos títulos que sua conhecida MK2, também exibidora poderosa na França, bancou no passado, de nomes desconhecidos no circuito internacional como Kieslowski e Kiarostami. Depois se tornaram os mestres que sabemos.

Mas no programa há também o Karmitz diretor, que desconhecemos por aqui, e eu tirei o primeiro dia de ontem para fazer um pacote completo de sua obra. Bem, algum impedimento técnico que não tive tempo de apurar atrasou a sessão de Camaradas, e eu optei por não perder a seguinte de Golpe por Golpe, seguida de um documentário sobre o produtor. No final dos anos 60, Karmitz se lançou a câmera como o homem de esquerda engajado que queria refletir sobre seu momento em Paris, turbulento como se sabe com as revoltas estudantis, as mudanças de contexto político etc. Camaradas, pelo que sei a respeito, traz a utopia juvenil tratada de modo emergencial dois anos depois do maio de 68. Quero conhecer ainda e depois comento.

Já Golpe por Golpe é de 1972 e vai a fábrica para registrar o momento de conscientização das operárias, num documentário com toque ficcional no qual as trabalhadoras interpretam a si mesmas, e com poucos atores profissionais em cena. Extenuadas por um cotidiano duro na tecelagem de uma vila industrial, sob ordens e tratamento desumano, elas se rebelam, ocupam a fábrica e fazem seu dono refém. O tom é realista, com a câmera em meio aos acontecimentos e discussões das mulheres, pressionadas entre o trabalho e o segundo tempo, ou seja, ainda cuidar dos filhos e maridos em casa. É filme, claro, devedor de um momento e um cinema de causa engajada, mas o resultado é surpreendente na elaboração. Lembrei do nosso Eles Não Usam Black-Tie, a importância do filme de Leon Hirzsman em um período de final de ditadura para recompor a discussão e trazer de volta as questões operárias. No filme de Karmitz, as coisas tomam um rumo melhor apenas quando entra em cena o jogo político, a preocupação de um mandatário de não ficar mal perante a sociedade. Aqui ou lá, mesmo sem o regime severo dos militares, as coisas se parecem. Karmitz, também reconhecido pela Mostra com o Prêmio Humanidade não veio, mas enviou o filho Nathanael, seu sucessor no império de salas e na produtora. No documentário, depois seguido de conversa com o herdeiro, vemos uma trajetória típica do imigrante, no caso judeu romeno, que se fez com olhar perspicaz. Hoje lhe cobram como pode ter se tornado um capitalista tão bem-sucedido e abandonado a visão do passado de seus filmes. Ele responde, no documentário, que como poderia dar vez aos novos e diversos olhares do cinema sem pensar em dinheiro? Toda figura como ele no mínimo gera controvérsia, e isso talvez falte um pouco a esse filme de reverência.

A Volta de Antígona

É de outra ditadura, a econômica, bem mais perceptível em seus estragos, que nos traz o grego A Volta de Antígona, agora na atualidade. Os gregos, claro, estão fazendo do cinema meio de reflexão para a brava crise financeira que enfrentam por lá e é impossível não associar o contexto aos dramas, como acontece em Miss Violence. Antígona é a atriz que deixa Atenas por não conseguir sobreviver e retorna ao vilarejo onde nasceu, um lugar agora sem oportunidades e sucateado como o cenário do ferro-velho que vemos na trama. Mas como todo lugar que se depauperou, aqui há os espertos que souberam tirar proveito e se por no comando, o que acontece com o pequeno empresário canalha envolvido com a melhor amiga de Antígona. Há também um antigo amor que a moça deixou para trás e o rapaz, mais jovem, com quem ela se envolve. Ao notar a decadência de tudo a sua volta, ela tenta se rebelar, um tanto inutilmente. O quadro é um pouco óbvio, mas o drama se sustenta, também pela memória de um período melhor no passado relembrado pela protagonista.