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Cultura

65 Festival de Berlim

E Panahi triunfou...

por Orlando Margarido — publicado 14/02/2015 18h23
O Urso de Ouro para o iraniano, saída política e digna mas também fácil, coroou uma premiação com alguns desajustes e acertos no geral

Na medida em que a cerimônia de premiação avançava, ficava claro que os melhores filmes desta Berlinale não receberiam os prêmios principais. E não estou falando apenas por serem meus preferidos, e sim de uma noção geral entre os colegas. A primeira decepção veio com o Urso de Prata de contribuição artística, que não bastava ser ex~aequo, ou seja dividido entre dois escolhidos, parecia sugerir tirar o russo Under Electric Clouds da parada. A fotografia do filme de Aleksey German Jr empatou com a câmera do alemão Victoria, no único quesito realmente interessante deste filme. Mas quem sabe, em vã ilusão, viria algo mais para o russo, que gosto muito. Bem, mais nada... Em seguida, veio o roteiro para Patricio Guzman, e o desencanto meu, nosso, de alguns colegas brasileiros que acompanhavamos juntos a premiação, estava estampado na cara do grande diretor, documentarista, chileno. Seu El Botón de Nácar merecia mais. Tanto mais porque a direção, em outro ex.aequo, e não me lembro disto acontecer nesse grau em edições passadas, foram ambas escolhas equivocadas, fracas, descartáveis mesmo. Nem o romeno Aferim, e muito menos o polonês Body, apresentaram cacife para tanto, e o segundo se deve justificar pela estranheza que costuma ser bem recebida por esse festival, como aconteceu há dois anos com o canadense Vic e Flo.

A partir daí, pode se argumentar por esta ou outra opção, mas os prêmios de interprete para o casal central Charlotte Rampling e Tom Courtney por 45 Anos são defensáveis, tocantes mesmo, mas também com algo de apelo facilitador. Por que não quebrar a ótima afinidade dos atores e oferecer a Alba Rohrwacher um merecido reconhecimento por sua Vergine Giurata? O filme italiano, afinal, saiu de mãos vazias. Menos mal, e põe menos nisso, que o incontornável se deu e o Urso de Prata dedicado a trabalhos que abrem perspectivas, e leva o nome de Alfred Bauer, foi para Jayro Bustamante e seu Ixcamul. Depois do bonito discurso da charmosa Rampling, foi o primeiro momento emocionante da festa, com o diretor guatemalteco estreante subindo ao palco com as duas representantes do povo maia, estrelas do filme. Fiquei mais feliz ainda que Pablo Larraín com seu duro trato sobre a Igreja no país em El Club tenha levado o Grande Prêmio do Júri. Fechava se com chave de ouro a ótima representação latino americana da edição. Quem sabe não valeria lembrar com um viva o México no filme de Greenaway, para completar. Mas vá lá que se compreende o gosto menos afeito a extravagãncia que é o filme sobre Eisenstein se liberando sexualmente em Guanajuato. Luis Carlos Merten me contou hoje no nosso tradicional almoço de confraternização num ótimo restaurante russo que Dieter Koslick, o chefão da Berlinale, lembrou em pronunciamento que foi uma edição em que os novos realizadores apresentaram um cinema melhor que os veteranos. É isso aí.

Vocês já notaram até aqui a minha pouca disposição para comemorar a vitória de Táxi. Nem de longe pensem numa reprovação ao filme de Panahi, tanto mais porque é uma belissima homenagem ao cinema. Mas a ida ao palco da garotinha, pois claro que Panahi não pode vir a Berlim, que dialoga com seu tio, e sim ela é sobrinha do diretor, no táxi, diz muito do que consiste esse prêmio. Some se aí o discurso do presidente do júri, Darren Aronofsky, reafirmando o tom engajado de lembrar a situação política do realizador, proibido de filmar em seu país, e por isso obrigado a lançar mão de expedientes variados e originais. É o que ele faz neste filme mais uma vez. Creio que o júri, assim como a direção da Berlinale, não quis perder esse bonde da história num momento trágico também por recordar as diferenças do islamismo, aquele radical dos ataques como em Paris, e o outro da paz, que prega a boa convivência e o respeito entre os credos. Panahi, claro, é vítima do primeiro não pela violência mais apelativa da força, mas daquela também autoritária que ceifa seu direito de se expressar. Koslick foi buscar pessoalmente a pequena atriz para levá la ao palco, que muito emocionada, chorou e mal conseguiu balbuciar alguma coisa. A imagem, queira se ou não, já está rodando o mundo neste momento e oferece uma visão forte e politizada mais uma vez a Berlinale, que cultiva esse aspecto como se sabe. O Urso de Ouro, portanto, é uma solução apreciável, honesta, mas sobretudo conveniente. Preferia que fosse o cinema aqui a falar mais alto.