Cultura

Berlinale

E Karim?

por Orlando Margarido — publicado 11/02/2014 17h17
Sim, Praia do Futuro é um belo filme, ainda que por aqui não pareça repercutir

Berlim -- Dia corrido, com as sessões de praxe para a imprensa na parte da manhã e muitas entrevistas a tarde. São 7 e meia da noite por aqui. Esperei a equipe de Karim Aïnouz entrar na sessão de gala e cá estou na sala de imprensa do Palast, o palácio do festival. Mas vamos direto ao que interessa: gostei muito de Praia do Futuro, o filme de Aïnouz em competição. Desde Tropa de Elite que o Brasil não está representado na seção competitiva da Berlinale. Em 2008, o filme de José Padilha ganhou o Urso de Ouro, o principal prêmio da Berlinale. Antes dele, Central do Brasil. Temos chance agora? Difícil dizer. Em geral, ao final da sessão imprensa, há algum tipo de reação dos jornalistas. Aplausos, vaias. No caso de Praia do Futuro, houve, digamos, um agravante. Aïnouz termina seu filme com uma música no último volume, no gênero pop que tanto o agrada. Não se ouviu,a princípio, nenhuma manifestação da platéia, mas sabe-se lá.

A questão não é só essa, Karim trouxe um filme numa vertente diferenciada do que tem se visto por aqui. Filmes de gênero, convencionais em sua maioria. Vocês já podem ter lido por aí, mas o primeiro apelo é o de um filme gay, com beijos quentes e  cenas de sexo entre o personagem de Wagner Moura e o de Clemens Schick, o ator alemão que faz a ponte entre Berlim e Fortaleza, cenário que justifica a co-produção Brasil e Alemanha. Ambos os atores tem nus frontais. Logo no início, o salva-vidas interpretado por Wagner protagoniza o sexo passivo. O filme corre e será a vez de Clemens protagonizar o sexo oral no parceiro. O quanto essas cenas são determinantes? Wagner tratou de colocar as coisas no devido lugar durante a coletiva de imprensa. O filme, contesta, não é para ser interpretado na perspectiva mais apelativa do sexo entre homens. Questão de responsabilidade não fazer disto o assunto principal. E, em verdade, não é sobre isso o drama de Karim, mas sim um contexto que me parece também pessoal, íntimo ao diretor, um filho de argelinos criado no Ceará e com forte vivência européia. Trata da identidade, do ser outro em outro país, outra cultura. O imigrante, em suma, que não se reconhece em um lugar que não é o seu, o não-lugar. É uma história sobre a coragem, o medo e o desejo de se aventurar, lembrou Karim.Ele mesmo mudou para Berlim e há alguns anos mora na capital alemã com o companheiro. Quando o filme começa, o personagem de Wagner salva do afogamento o personagem de Schick. Mas não o amigo deste. Do relacionamento nasce a paixão e na segunda parte do filme o brasileiro passa a viver em Berlim. Há um terceiro ato, quando o irmão caçula de Wagner, vivido por Jesuíta Barbosa, viaja já amadurecido para cobrar do outro o abandono, o sumiço sem justificativa.

Este percurso, um deambular, tem perspectiva diferente para os irmãos. O mais velho respeita o mais novo por sua determinação. Lembrei muito de O Abismo Prateado, filme bem menos inspirado de Karim, mas que de certa forma me parece um ensaio de elaboração para este, no sentido de ser o contraponto heterossexual do que vemos agora no confltito entre os dois homens. Se isso vai tocar os jurados é uma incógnita. Mas meu colega André Miranda fez uma relação interessante a partir de uma provável reflexão do presidente do júri, James Schamus, produtor dos filmes de Ang Lee, inclusive de Brockback Mountain. Quem sabe os cowboys gays possam sensibilizar seus colegas na corrida para o Urso de Ouro, que será revelado no próximo sábado.