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E as mulheres mandam

por Orlando Margarido — publicado 12/02/2013 19h25, última modificação 12/02/2013 19h25

Berlim – E não é que não param de surgir filmes por aqui liderados por mulheres? Significa que o júri enfrentará um páreo duro na decisão sobre a melhor atriz. Pelo contrário, quanto ao intérprete masculino ainda não surgiu me parece um candidato forte. Talvez o ator polonês que interpreta o padre acoçado pelo desejo por rapazes do reformatório e com a vocação em crise. Seria um prêmio ideal agora com esta súbita e surpreendente renúncia do Papa. A Polônia, país católico, já rendeu alguns pontifices bem populares e o fato do tema assinalar um dos tabus e escândalos mais associados a Igreja ultimamente, a pedofilia, pode ter sua contribuição. Mas voltemos as atrizes. Mesmo no drama que recorre a recursos de thriller de Steve Soderbergh, Side Effects, elas dão seu recado, inclusive no contexto do amor lésbico que também surgiu com Eu Nunca Disse Eu Te Amo, como já comentei, no canadente Vic + Flo, e no francês A Religiosa. Não vou dar detalhes porque seria revelar muito do final da trama. O filme, dito ser o último do diretor, aborda o mundo dos antidepressivos. Mas não corre como os projetos de denúncia recentes e aborrecidos de Soderbergh. Rooney Mara é a jovem que entra em depressão e, depois de passar pela terapia com Catherine Zeta Jones, recorre a um psiquiatra vivido por Jude Law. Ele receita uma nova droga do mercado e ela se desorienta por completo. Comete um assassinato sob o tal efeito colateral e o caso vai para a justiça, o que encrenca a vida do médico. Fiquei pensando como aqui também, a exemplo de O Lado Bom da Vida, se desperdiça uma boa possibilidade de discussão de um recurso de medicação tão banalizado hoje em dia em prol do apelo aos estratagemas de uma investigação. Ve-se um filme de bom argumento mais uma vez como entretenimento. Rooney sustenta bem seu papel, ainda que não acredito ter chances.
Isso porque hoje mais uma bela atriz entrou na disputa, depois de Paulina Garcia por Gloria, e Luminita Gheorghiu, a romena de Child’s Pose, que já comento. Estou falando de Juliette Binoche, que é a Camille Claudel perfeita de Bruno Dumont. Binoche explicou a pouco na coletiva de imprensa que foi ela a querer trabalhar com o diretor francês de filmes como A Humanidade. Talvez por isso o projeto não se pareça com os anteriores, tendo apenas talvez uma proximidade com Hadewijch, no qual uma jovem se debatia com uma vocação religiosa. O contato da religião católica, referência constante de Dumont, se dá aqui pela via do suplício. Dumont flagra a escultora francesa quando já internada num asilo de loucos comandado por religiosas. É 1915, dois anos depois do inferno vivido como amante de Rodin. Mas o inferno está ali dentro também, na convivência difícil com os doentes. Camille foi internada a força pela família. Perdeu seu ateliê, suas obras. Acredita-se sã e quer sair dali. Dumont a mostra na normalidade possível daquelas condições. Recorreu ao diário médico e também as cartas da artista, inclusive para o irmão Paul Claudel, o escritor que vai a obsessão católica, inclusive na sua literatura. O encontro de ambos é uma das cenas mais destruidoras do filme. Binoche está sublime, com sua variação do riso ao choro compulsivo numa mesma tomada. O modo como Dumont prescruta seu rosto todo o tempo me fez lembrar a Falconetti de Dreyer em Joana D’Arc. Acho que está ali, experimentada pela recorrência de Camille as preces, a tentativa de ascese também perseguida por Falconetti. Gostei muito do filme, embora vejo colegas reticentes com a postura de um cinema diferente do que Dumont pratica. Não acho que ele poderia ter adotado outra perspectiva do que o sofrimento já natural de Camille. Na quinta, entrevisto o diretor e a atriz para saber mais dessa parceria.
Se o júri não optar por Binoche, e penso que seria apenas por não querer acentuar a recorrência de uma atriz já badalada, me parece que o ideal seria a protagonista de Child’s Pose. Essa mãe coragem de Luminita, como muito já se falou por aqui, dá aquele tipo de interpretação que se inicia contida e arrogante para chegar num fim de explosão emotiva. Sua Cornelia é a matriarca da alta burguesia de Bucareste disposta a tudo para salva o filho de uma enrascada. Ele atropela uma criança numa estrada próxima da capital e o menino morre. O primeiro embate se dá entre a família de dinheiro e a da vítima, sem recursos. Cornelia manipula a polícia, a testemunha... Mas o relacionamento com o filho não é fácil e aí se tem o segundo embate, quando a mãe tenta influenciar seu julgamento, seu casamento. Não lembro de um filme romeno jogar luz sobre essa recente classe alta que saiu enriquecida depois da ditadura brava no país. Em outro contexto, me lembrou o contraste visto em A Separação, Urso de Ouro aqui há dois anos. Ali havia a questão religiosa. Aqui é o capital puro e simples determinando sentimentos e a falta deles. Tudo vem a tona quando as duas familias se encontram, numa cena forte, também pelo desempenho de Cornelia. Me parece o filme mais habilitado até agora para o premio principal. De mãos abanando, o diretor Calin Peter Netzer não sai.
E para fechar o reinado das mulheres (por enquanto!), um breve comentário sobre Layla Fourie, que já puxa para o título o nome da protagonista. O ponto interesssante desse concorrente sul-africano é nos trazer uma visão atual do país que tanto sofreu com o apartheid. E o resultado é que pouco ou nada mudou. Os brancos, no caso holandeses, continuam a viver em condomínios cercados, e os negros em miseráveis aglomerados. É entre esses dois mundos que Layla, negra, se divide quando aceita o trabalho de testar com um detector de mentiras, sua especialidade, novos contratados para um hotel-cassino. Parte para lá com seu filho pequeno e no caminho, olha aí os temas similares, atropela um homem na estrada. Tem medo de conduzir o corpo do senhor branco até a polícia e o enterra num lixão. Um de seus candidatos, veja só, é filho da vítima, com quem se envolverá. Os recursos dramáticos um tanto óbvios e as reviravoltas frouxas tiram a força do filme, mas a atriz Rayna Campbell consegue sustentar a dignidade até o fim. Num festival de engajamento político como é Berlim talvez faça sentido premiar esse esforço de representação de um país dividido. Deixo para amanhã, depois de entrevistar o co-diretor, o comentário sobre o filme de e com Jafar Panahi, que, claro, como vocês sabem, não pode sair de casa nem de seu país. Aliás, é mais uma vez numa residência, como no apartamento de Isto Não É um Filme, que se passa a coisa toda. O filme se chama Closed Curtains no título internacional. Até!

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