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Cultura

71° Festival de Veneza

E ao final… Konchalovsky!

por Orlando Margarido — publicado 05/09/2014 13h01
O russo de tão irregular carreira trouxe um respiro original ao Lido, na reta final da competição

Muitas vezes é assim. Os jornalistas e demais profissionais começam a ir embora, as filas diminuem, a estrutura vai aos poucos sendo desmontada, e pronto, eis que surge um ótimo filme, talvez o melhor de uma competição. Me lembro quando Entre os Muros foi exibido no último dia do Festival de Cannes para uma sala vazia e muitos perderam a Palma de Ouro. Desde então tenho a impressão que as salas de Cannes se mantêm cheias até o fim. Havia muita gente também, sessão lotada, para a exibição ontem a noite de The Postman’s White Nights, o título em inglês do filme do russo Andrej Konchalovsky. O cinema do irmão de Nikita Mikhalkov é irregular e não tem integrado seleções internacionais dos grandes festivais. Mesmo assim houve uma pequena claque que aplaudiu seu nome logo no início dos créditos, para em seguida se ouvir vaias. Surgia a cartela da União da Federação Russa, que apoiou a realização do projeto. Como se sabe, a Rússia de Putin não anda bem na fita do painel político internacional. Há o agravante também da proximidade com Mikhalkov, polêmica figura que ao presidir o principal órgão estatal de apoio ao cinema, como se fosse a nossa Ancine, teve uma atuação controversa e aproveitou para dirigir ele mesmo um dos filmes mais caros já realizados no país.

Mas o que importa é o que veio a seguir. Konchalovsky foi a um vilarejo em algum canto remoto da Rússia filmar os habitantes e seu cotidiano ainda um tanto atrasado, se considerarmos a modernista e caos das grandes cidade. Um documentário? Na origem sim, mas trata se de um daqueles casos de híbrido, em que o real e a encenação intervem a todo momento. Os moradores interpretam a si mesmo, e há apenas uma atriz, revelou o diretor hoje na coletiva. O protagonista é o simpático carteiro Aleksey, tipo querido da pequena comunidade, que faz a entrega da correspondência num barco a motor. Vemos a repetição dos afazeres, do encontro com conhecidos folclóricos, como o bêbado ou o campones que almadiçoa tudo e diz que qualquer hora mata alguém. Mas a predileçâo do carteiro é pela bela mãe que cria seu filho pré adolescente, a quem Aleksey se afeiçoa e cuida como a um filho. Solitário em casa ele não consegue dormir nas noites em claro (daí o título das “noites brancas”) pensa ver a figura de um gato. Há esse toque de fantasia, e Konchalovsky também a sugere quando se vê ao fundo de uma cena final um foguete sendo lançado. Próximo da comunidade existe uma base militar que o carteiro visita, sutil aproximação de uma velha e nova Russia,  e esse foi um dos poucos pontos que o diretor pôs se a explicar, dizendo preferir que cada espectador interprete o filme e suas alegorias como quiser. É possível encontrar uma noção política nesse retrato de um país militarizado e diverso como a Rússia, e a roupa própria de combate que o protagonista e alguns outros homens do vilarejo vestem sugere algo mais que simples uniforme de trabalho. Sempre em guerra, o país atrai justamente esses homens simples do campo para servir a pátria e depois os devolve a antiga vida, mas já desestruturados. É uma visão possível, ou também é apenas um registro poético de um tipo de vivência que desaparece. De todo modo, o filme tem uma força encantadora.

Já perceberam que é este o meu Leão de Ouro. Afinal chegamos ao fim da competição esta manhã com um drama de guerra (e não acho que tenha sido colocado próximo a Konchalovsky por acaso) que não poderia ser mais na oposição ao belo filme russo. Há guerra, sim, mas não no front propriamente dito. Good Kill, do americano Andrew Niccol, nos leva mais uma vez ao Afeganistão, mas do ponto de vista muito seguro de Las Vegas. Como assim? Niccol recupera a ação dos chamados drone, os aviões não tripulados e comandados por controle remoto, usados nas ofensivas depois do 11 de setembro. Em uma base militar do deserto, o piloto intepretado por Ethan Hawke lidera essa tarefa. Em imagens captadas por câmeras, seu time procura alvos ditos perigosos e pronto. Basta acionar o gatilho e lançar o míssel, como num videogame. O contraponto da história, propõe o diretor, é a consciência moral e a crise que começa a atormentar Hawke, o que se estende a sua família. Não basta este ou um outro protesto de sua companheira de trabalho para que se imponha um filme equilibrado e honesto dessa passagem funesta da recente história americana. Na tentativa de mostrar que por baixo do uniforme submetido a ordens de superiores bate um coração, tem se por exemplo o fato de um integrante do Taleban que violenta repetidamente uma mulher, visão que os choca. Veremos também as repetidas matanças, num contexto e ponto de vista tão americano que não faz do filme nem de longe um acerto de contas com o passado. É quase um acinte te lo numa competição do nível de Veneza.

Isto, claro, será sempre uma questão de ponto de vista e foi também um debate acalorado o que ocorreu ao final da projeção de Sivas, do turco Kaan Mujdeci. Seu retrato de uma tradição do interior pobre em que cachorros de raça lutam até a morte provocou mesmo uma reação de um jornalista na sessão de imprensa que exortou o filme a ser banido do festival. Tudo aos gritos. Entre nós, digo os colegas brasileiros, a divisão dos que acharam uma vergonha a constante exibição dos enfrentamentos entre os bichos perante a câmera, o que em nenhum momento me pareceram reais, e aqueles como eu refletem sobre o direito de exibir uma tradição que segue, sem, claro, defender sua existência. Não deixa de ser irônico que o exagero de corpos dilacerados, membros amputados e canibalismo no filme do japones Shinya Tsukamoto sobre a participaçao do país em guerras asiáticas provoque menos reação, levando em conta que não se trata ali claro de uma sugestão de vivência real.

O filme turco talvez se ressinta de uma trama mais apurada, mas a idéia de estabelecer uma amizade entre um garoto rebelde e independente e um desse cães de briga me pareceu muito significativa. Há uma personalidade violenta do menino que irá se humanizar na medida em que atenta ao sofrimento do cachorro. Não creio que o júri va se sensibilizar pelo olhar infantil, e os candidatos para o prêmio de revelação este ano são muitos entre essa idade, o neto do ditador em The President, ou o adolescente de força adulta em Le Dernier Coup de Marteau.

Curioso que cheguemos ao fim tendo dois filmes de contexto documental, colocado entre aspas no caso do russo, mas quase tradicional em The Look of Silence. Duvido que Veneza renove o voto ao não ficcional depois de outorgar o Leão de Ouro a Santo GRA no ano passado. Daí Konchalovsky ser uma boa opção, já que temos ali uma força a partir do ficcional daqueles atores não profissionais. Ou o oposto, na encenação no limite do teatral que nos propõe o sueco Roy Andersson. Seu filme feito de tableaux vivants e de longo título, traduzido por mim, Um Pombo Sentado em um galho refletindo sobre a existência, é uma excentrica leitura crítica e ácida da sociedade sueca, dos hábitos a presença da monarquia e revisão de conceitos coloniais e de racismo. É um trabalho que impacta de início, mas depois paga o preço da estranheza em excesso anulando se. Mas enfim, muitos dos vinte filmes da competição, senão a maioria, são filmes bons, dignos, com a exceção de praxe, e fica a impressão um tanto mediana que se não ressalta um titulo em especial, também não parece condenar o painel como um todo. Veremos amanhã, 19h aqui, 14h no Brasil, o que o júri fara com o que tem na mão.