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Documento da memória

por Orlando Margarido — publicado 29/04/2014 13h06
O português Joaquim Pinto e seu diário arrebatador da aids, do amor e do cinema

Falei em post anterior sobre a acolhida sempre calorosa do público do Cine PE aos filmes, e como o centro de convenções lota para vê-los. Bem, para Getúlio e O Mercado de Notícias, a referência procede, com mais da metade da casa cheia, e olha que são 1.600 lugares. Mas ontem, não mais que cem pessoas compareceram a sessão do longa português E Agora? Lembra-me. Um filme sobre aids, drogas pesadas para combatê-la, memória?

É o que a sinopse no catálogo apontava. Pois é também, mas muito mais, e aliado a isso a duração de quase três horas. O público sumiu. Pena, seriam recompensando por uma delicada e cativante reflexão sobre a vida, o cinema, o amor, este já num grau que parece sugerir mais companheirismo, até que o diretor nos dá uma cena ousada, com ele e o parceiro Nuno numa bonita cena de sexo. Quando o filme começa, o tom da voz em primeira pessoa, os pensamentos abertos a vários temas, um certo viés de deboche da realidade, lembra o cinema de João César Monteiro. Logo adiante a aproximação se explica.

Pinto é um técnico de som com carreira desde os anos 60 e fez vários filmes de Monteiro, assim como também de André Téchiné, Raoul Ruiz, Werner Schoeter, entre outros. Exceto Téchiné, os demais já morreram. Joaquim Pinto relembra essas parcerias, e enfrenta ele mesmo a luta contra a morte. Tem HIV e participa de um tratamento experimental com novos medicamentos, terríveis em seus efeitos, como a perda eventualCartaCapital da memória. Fraco, depende do companheiro para tudo. Por conta da doença, os dois foram morar entre um vilarejo e o campo, onde Nuno se integra a terra, planta e cuida dos afazeres domésticos e dos cachorros.

São quatro, e eles tem papel preponderante na convivência dessa família que precisou se estabilizar de forma menos convencional para sobreviver. O relato, no entanto, nunca é aborrecido ou baixo-astral, se muito um pouco melancólico, o que também lembra Monteiro. A paixão de ambos, a reflexão sobre o cinema, sempre presente na rotina de Joaquim, faz seu filme também convergir a noção da arte como suporte para se encarar uma batalha terrível de sobrevivência. Um belo ensaio, que tem grande chance de sair premiado esta noite pelos júris oficiais e popular. Este ano o festival separou as premiações e os documentários ficaram para hoje. Vamos ver logo mais a decisão com bons competidores como 1960 e O Mercado de Notícias.