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Cultura

38ª Mostra

Dilemas da palavra e do mundo cão

por Orlando Margarido — publicado 22/10/2014 13h10
Os filmes de Nuri Bilge Ceylan e dos Dardenne trazem a reflexão de questões determinantes como a moral e a honra

Difícil abordar tudo de que trata Winter Sleep e entendi minha amiga e colega de crítica Neusa Barbosa por ter ido rever o filme, depois de tê-lo assistido na tumultuada sessão de imprensa de Cannes. Não fui este ano ao festival francês e tenho procurado deixar para mais a frente os filmes vencedores que integram a Mostra e já tem estréia garantida por aqui. Mas de repente, lá estava eu assistindo ao novo Dardenne(s), graças a uma janela que se abriu na programação e a um ingresso que sobrou na última hora. Como Ceylan, também não me arrependi, e comento Dois Dias, Uma noite em seguida. São os dois melhores filmes que vi até agora de nova produção, ou seja, exceção a clássicos antigos, como Falstaff ou Salto no Vazio, de Bellocchio.

O novo Ceylan tem a beleza de seus demais filmes mas achei ainda mais impactante em suas três horas e tantas em que não consegui desgrudar dos diálogos, dos rostos e paisagens bem filmados, da atmosfera lírica e ao mesmo tempo pesada e angustiante da neve. Alguém comentou ao final da projeção que pena o filme ser tão longo. Ora, é um filme da palavra, e sobre ela, e para tanto é necessário o tempo e a calma para desenvolvê-la. Ceylan também nos ensina a retomar a reflexão, o ato de pensar pelo cinema. Esta arte atualmente tão diversificada e ao mesmo tempo consumada pela velocidade e o descarte, nos lembra ele, também pode filosofar.

É isso que se faz basicamente no filme, embora como em Era uma Vez na Anatólia, para mim tão bom quanto este, há um enredo a servir aos propósitos da reflexão. Um ator retirado cuida de um hotel no interior do país, me parece a Capadocia, enquanto busca inspiração para escrever a história do teatro turco. É uma propriedade de família, assim como outras da região que aluga aos moradores. Com ele está a irmã separada, que segue uma rotina entediada, e sua mulher mais jovem. Se dá entre o trio as longas discussões em que se insere temas como o papel do pensamento hoje, da figura do intelectual, da importância ou não de se manifestar ao mundo, de escrever. Também dos dramas pessoais, associados a noção de uma superioridade da vida que os protagonistas levam ali, em meio a pobreza vizinha. Os irmãos nunca precisaram realmente trabalhar, ganhar a vida, e o vértice fraco aqui é a jovem, dominada pelo cinismo e arrogância do dinheiro do marido. Dois fatos precipitam dilemas. No primeiro, o filho de um locatário que deve dinheiro joga uma pedra no carro do senhorio. A atitude se torna um embate ríspido e dá conta de um contexto quase medieval de relações. Em outro fato, a jovem esposa tenta formar um fundo de assistência as escolas locais mas é contestada pelo marido em sua inexperiência. A palavra serve ao bem refletir, mas também a dureza. Como em Shakespeare, de que Ceylan não esconde como referência, no nome do hotel, Othello, ou em cartazes de montagens de que o protagonista participou. Este tem a complexidade entre o homem de intelecto e o ser  irracional e  despótico, comum a obra do inglês. Um filme de muitas camadas, a se voltar outras vezes com atenção.

Vote nela

Não, não é referência a eleição do próximo domingo. O voto a que me refiro é aquele perseguido a duras penas pelo personagem de Marion Cotillard no novo filme dos irmãos Dardenne. Ela tem o fim de semana, e a noite antes da segunda-feira, daí o título, para conseguir que seus companheiros de trabalho, uma maioria para ser mais exato, mudem uma decisão que terminou por determinar seu afastamento. Funcionária de uma pequena empresa, ela foi demitida depois de passar por um período de depressão.

Os chefes descobriram então que poderiam abrir mão dela e trabalhar com o resto da equipe. Ofereceram um bônus mensal em troca do posto da colega, e Sandra, foi para a rua. Pura velhacaria de um pensamento torto da tal economia liberal, a que os Dardenne sempre atentam em seu cinema pela via moral e de honra. É desta me parece a origem do dilema que se impõe a mãe de família. Ela reconhece o direito dos demais de preferir o dinheiro mas deseja seu emprego de volta. Não acha justo padecer em função do benefício alheio e a briga pelo convencimento não será fácil. Marion está longe do glamour a que nos habituou em seus filmes, dilacerada pela pressão e os remédios. Ao menos ela deveria ter sido reconhecida em Cannes, que fez média e não contemplou este belo filme.