Cultura

Diabo de tecnologia

por Orlando Margarido — publicado 19/09/2013 17h32
A exibição digital, maior dor de cabeça atual dos festivais nacionais, sabotou primeiro concorrente de Brasília

A primeira noite da competição, ou melhor, parte dela, foi vítima da tão celebrada nova tecnologia digital. Celebrada por muitos diretores na realização dos filmes, que dizem sem ela não terem chance de filmar, verdade em grande parte. Mas na hora da exibição é outra história. Foi o que se deu ontem com Os Pobres Diabos, o novo longa de Rosemberg Cariry. A projeção corria bem na primeira hora, aliás muito bem, com ótima definição a valorizar a bela fotografia de Petrus Cariry, quando o som estoura, a imagem para, há perda de sincronia, trava aqui, trava ali, e na terceira tentativa se decide por cancelar a sessão. Era o segundo bloco da noite, portanto, já perto de 23h30. Houve um momento de expectativa, quando boa parte do público debandou do Cine Brasília, aliás novinho em folha depois de dois anos de reforma, até que o diretor do festival Sérgio Fidalgo viesse dar as desculpas e explicações de praxe. O famoso DCP, ou Digital Cinema Package, que anda sendo a dor de cabeça dos festivais, mas curiosamente não das sessões habituais dos circuitos, não suportou o excesso no servidor dos testes dos filmes do dia e, pronto, fim de papo.

Se vocês, como eu, não entendem e tem pouca vontade de compreender esse universo, vou apenas acrescentar que a mídia aparentemente ideal para se adotar nesses casos é a H264. Tanto que o regulamento do festival, segundo Fidalgo, previa essa opção. Mas ele mesmo alterou a regra por, sempre segundo ele, pressão dos próprios cineastas selecionados para a competição. Ou seja, parece o típico tiro no pé. Dizem que o DCP oferece uma maravilhosa definição, e realmente era o que se via na sessão ontem. Mas a que custo? É discussão infinita esta, e quem perde afinal, é o público e nós obrigados a apertar numa agenda já apertada uma sessão de reprise. Além da extrema decepção de não terminar o filme, claro, um incidente destes abala todo o cronograma do festival. E pior, não há garantia de que não aconteça o mesmo novamente hoje e nos próximos quatro dias de competição, postura assumida do festival. Sem a possibilidade de reverter o sistema adotado, já que os filmes foram enviados para o DCP, podemos pensar numa desastrosa continuidade, ou a falta dela. Rezemos.

Com o incidente, o tradicional debate da manhã seguinte se tornou uma coletiva para em parte tentar saldar o infortúnio e ao menos conversar um pouco sobre a produção de Os Pobres Diabos. Nem vou comentar muito do filme para revê-lo com a devida propriedade, mas me interessou saber de Rosemberg se a idéia do circo como o arquétipo a que ele se referiu na apresentação do palco veio como uma linguagem para ele se exercitar nas alegorias tão comuns em seu cinema. O diretor cearense fez um filme de sotaques, aqueles a que normalmente a vida mambembe acolhe em seu percurso. Daí também uma variedade na origem do elenco. Dos paraibanos do Teatro do Piolim, como Everaldo Pontes e Nanego Lira, ou Zezita Matos, também dos palcos da Paraíba, ou do carioca Chico Diaz, nós já sabiamos ser seu grupo habitual. Agora se acrescenta a essa trupe Silvia Buarque e Gero Camilo, este sim, um cearense mas de trabalho tão ligado a São Paulo que mais nos recorda um paulista. Rosemberg lhe deu a chance de voltar ao Ceará para um longa-metragem. Toda essa reunião diversificada confere autenticidade ao mundo do circo, ao menos daquele sem recursos, feito por pobres diabos como aponta o título.

Na Alemanha de Rosa

Em nada atribulada, e no mesmo suporte tecnológico que depois empacaria, correu a sessão anterior do documentário Outro Sertão, das diretoras Adriana Jacobsen e Soraia Vilela. E com uma bela surpresa. Ao recuperar a trajetória de João Guimarães Rosa como vice-cônsul em Hamburgo, na Alemanha, entre os anos de 1939 e 1942, portanto momento do nazismo, e a sua decisão de salvar vidas de judeus emitindo vistos para o Brasil, surgiu uma gema. Rosa, agora como escritor, aparece numa rara e talvez única imagem em movimento durante entrevista em um programa literário alemão, realizada em 1962. O filme é mais que esse achado, sem dúvida, com seu tom poético e revelador, mas o impacto de um homem culto, fluente na língua do país e consciente das diferenças culturais que com modéstia identifica, fica na memória ao final.