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De Palma de rir

por Orlando Margarido — publicado 07/09/2012 18h09, última modificação 07/09/2012 18h09

Veneza -- Encerrou, com os dois ultimos filmes esta manha, a competiçao do Festival de Veneza. Final melancolico, para dizer o minimo. Na primeira etapa tivemos o novo Brian De Palma, Passion. E para sintetizar, basta apontar que se trata de um pastiche de si mesmo. Mas mesmo as autorreferencias podem ser divertidas, o que tambem nao é o caso, porque De Palma se leva a serio em vez de apenas divertir os espectadores. Quer dizer, assim como na coletiva de imprensa que se seguiu a exibiçao, De Palma deve ter se divertido neste thriller com o suspense habitual baseado em Hichcock e pretensamente erotico, e suas atrizes tambem. Apenas Noomi Rapace compareceu ao Lido. Rachel McAdams, que tambem participa do filme de Malick em competiçao, nao voltou. Ela interpreta agora a alta executiva de uma agencia de publicidade que faz gato e sapato da assistente que é o papel de Noomi. Entre algumas cenas pudicas de beijos e caricias entre as duas, há uma disputa sobre uma nova campanha, pensada pela ajudante, mas com todos os louros para a chefe. Para esquentar, há também um tipo que as duas disputam. Chega-se então ao crime de amor que é o título do filme de Alain Corneau, Crime d'Amour, do qual De Palma faz a refilmagem. Não conheço o filme, mas quem viu diz que há sutilezas mais ricas e interessantes e que a história não se estica em tantas reviravoltas como aqui. E como o diretor americano explica suas escolhas? Com deboches, piadas sem graça, silêncio... A horas tantas alguém perguntou sobre o celular que é objeto importante no desvendar da trama, que não poderia ser rastreado e acaba tocando. "It s a dreeeaamm!" gritou ele para o jornalista. é um sonho. O diretor coloca tudo na conta dos delirios que justificam as voltas na trama. È recurso fraco, de quem já esgotou seu repertório, e anda sonhando, isso sim, que continua a fazer cinema.

A outra obrigação do dia, e põe dever nisso, foi o fraco drama romantico de Francesca Comencini, Un Giorno Speciale. E não há nada de muito especial nesse dia para a bela jovem de periferia que sai de casa preparada pela mãe para encontrar um político em Roma que ajudará na sua ambição de ser atriz. O motorista que a leva é um jovem em seu primeiro dia de trabalho. Quando o compromisso é adiado por algumas horas, os dois saem a viver aventuras e, claro, vao enamorar-se. Há um reverso do mito da Cinderela, no qual até não falta um sapato. Visto friamente, fora do contexto de festival dessa importância, o filme não incomoda nem tampouco faz vibrar. È mais um título sem muito inspiração no cinema italiano recente, e sua exibição aqui parece ter mais de cortesia do diretor Barbera com a filha de Luigi Comencini, este sim grande diretor. Enfim, nada hoje fez mudar o quadro de apostas para a premiação amanhã. Mais interessante foi ver o novo filme do russo Aleksey Balabanov, Me Too, e entrevista-lo. Fiz questão porque o diretor tera seus 11 longas-metragens exibidos no Festival Indie, agora no final de setembro em São Paulo, inclusive este. Depois comento mais. Agora quero jantar calmamente em Veneza com os amigos, coisa que não foi possível na correria da mostra. Até.

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