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Davi e Golias na serra

por Orlando Margarido — publicado 11/08/2012 23h15, última modificação 11/08/2012 23h18
A inquietação de Clara

O longa de Matheus Souza de longo título "Eu Não Faço a Menor Idéia..."

Gramado – Pela referência de origem vocês já sabem que estou na serra gaúcha, claro, para a cobertura da 40ª edição do Festival de Gramado. Mas não só para falar dos filmes e fazer entrevistas. Vim também para integrar o júri da crítica, que por aqui é realizado pela Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, a Accirs. Mas além dos colegas do estado, ela convida profissionais de todo o país. Estou animado com a função até porque trata-se de uma edição remodelada. O número simbólico da edição traz novidades, algumas boas, outras nem tanto, e desafios. Essa tradicional vitrine do cinema brasileiro que desde alguns anos também se tornou da produção latina passa por uma crise, que já se apontava no ano passado. Os gastos do festival passaram por uma auditoria e o Ministério Público suspendeu a captação de recursos até bem pouco tempo atrás, e foi na corrida que os organizadores conseguiram parte do orçamento, uma cifra já abaixo do que havia disponível até no ano passado. Isso se reflete na organização, no convite aos profissionais dos filmes e da imprensa. Mas enfim a festa gaúcha se abriu ontem à noite com boa repercussão e público, até porque, num benefício inesperado dessa crise, os preços do ingresso para o público baixaram significativamente.
E o que tivemos nessa largada da programação? Gramado apostou num título de apelo que não é exatamente brasileiro, mas tem um diretor a identificar o País. Trata-se de 360, de Fernando Meirelles, que vocês poderão conferir no próximo dia 17 quando o longa entrar em cartaz. Vi o filme em sessão para a imprensa em São Paulo, portanto não tinha muita noção do seria com uma plateia. Aplausos protocolares, com algum calor a mais pela presença do diretor, a atriz Maria Flor, uma das integrantes do elenco brasileiro, que também conta com Juliano Cazarré. O ator não pode comparecer por seus compromissos na novela Avenida Brasil. Ele é o gari, amante bronco e ignorante da personagem de Eliane Giardini. Se viesse, por certo aumentaria a temperatura da tietagem em Gramado. E nem é o caso de dizer pelo frio da cidade, pois aqui está um veranico inacreditável. Mas de volta ao filme. 360 é um filme globalizado, que fala varias línguas, coliga varias histórias, quer atingir todos, sem muito falar a ninguém, como bem definiu meu colega Zanin. Não é o caso de pensar em risco para Meirelles, diretor que vem desenhando uma carreira sem muita unidade e identidade. Não que isso seja um problema em si, mas é necessário criar algum vínculo de tema ou intenção para se enxergar coerência na carreira de um cineasta. O filme não contribui em nada para se voltar a enxergar o talento, inegável, de Meirelles em Cidade de Deus, ainda que eu não integre o time de apaixonados pelo filme. E não é por acaso que o diretor já está revertendo sua postura confessada recentemente de continuar a privilegiar uma carreira internacional. Hoje, no debate tradicional que se segue aos filmes, ele já apontou querer voltar a filmas em terras brasileiras. Pode ser um efeito na aceitação ruim do novo longa lá fora. 360 parte de um formato que pode ser muito interessante, próximo do filme coral que tanto agradava a Altman e também interessa a Woody Allen. Apenas que diferente desses, Meirelles disse ter interferido no roteiro para dar liga entre as diversas histórias, que se passam em países como Áustria, Inglaterra e Estados Unidos. Efetiva-se assim a co-produção com dinheiro internacional, num orçamento de 20 milhões de dólares. Assim, seguem as histórias das irmãs eslovacas, a mais velha integrada a um circuito de prostitutas de luxo em Viena, e a caçula como seu oposto, mantenedora da dignidade e um tanto ingênua para a vida. Depois que a primeira tem um encontro frustrado com um cliente (Jude Law), executivo em crise com a esposa (Rachel Weisz), a segunda conhecerá na rua o motorista de um gangster russo envolvido num casamento falido. Sua mulher está apaixonada por seu chefe, um dentista muçulmano culpado por honrar a mulher já morta. Em outro triângulo, um fotógrafo (Cazarré) será flagrado em traição com a mulher do executivo, aquele da prostituta, pela namorada (Maria Flor), que por sua vez conhecerá no avião um pai atormentado pelo desaparecimento da filha (Anthony Hopkins) e ainda se envolverá com um psicopata sexual em reabilitação (Ben Foster).
Dito assim, o filme parece correr com eficiência e em parte há mesmo boa fluência. Apenas que a inspiração em La Ronde de Arthur Schnitzler não se consagra na profundidade suficiente para dar crédito as personagens e situações por eles vividas, em especial naquela entre a personagem de Maria Flor e o de Foster. Também o romantismo da irmã jovem eslovaca não poderia supor tamanha disposição em acompanhar um estranho apenas por uma breve conversa. Mais do que tudo, no entanto, 360 tem o problema de tentar abarcar um mundo de sentimentos que se pressupõe igual e nivela-los apenas pela fronteira geográfica. Escolhesse um desses casos, como mesmo justificou Meirelles ao se dizer frustrado, e o filme ganharia força.
Guardadas as devidas proporções, é o que faz o jovem Matheus Souza ao concentrar a atenção em um ou dois personagens centrais no drama de longuíssimo título Eu Não Faço a Menor Idéia do que Eu To Fazendo da Minha Vida. Foi o primeiro longa da competição nacional, exibido logo depois do filme de Meirelles. É rara a noite de abertura trazer de cara um competidor, uma situação ingrata pois o público está mais interessado na badalação do que continuar na sala para uma segunda rodada. E dito e feito, o Palácio dos Festivais se esvaziou, mas quem ficou persistiu e parece ter gostado do que viu. Por certo, a curadoria e a programação deram um recado do que se pode fazer com uma parte ínfima do orçamento de uma grande produção como 360. E Matheus mandou bem (para usar uma expressão juvenil) com 20 mil reais, embora com alguns cacoetes já notáveis depois de sua estréia em Apenas o Fim, pequena proposta, diga-se como produção, que fez alarde entre o público dos 20 e tantos anos e nas redes sociais. Naquele, um casal de namorados na faculdade debatia seu relacionamento em conversas intermináveis. Há um modelo similar agora, apenas que o centro da trama recai mais sobre a jovem Clara (a bonita e graciosa Clarice Falcão), filha de pais de relacionamento instável e estudante de medicina em crise com suas escolhas que aceita a proposta de um admirador recente (Rodrigo Pandolfo) para ajuda-la a buscar um objetivo profissional. A idéia é que a jovem converse com seus familiares, como o avô e os tios, e busque neles exemplos e conselhos de vida. O expediente é interessante ao filme. Permite situações engraçadas, outras sérias e emotivas, e exceção a exageros aqui e ali e algumas quebras na narrativa (não a conversa com Clara com a câmera), o filme funciona bem para seu público. Nisso já quero creditar certa parcela restritiva, pois me parece que o longa vai atingir mais essa faixa etária dedicada a internet e as redes sociais. Mesmo nisso o filme faz sua crítica através da personagem de Clara, cativante na interpretação de Clarice, filhas do diretor João Falcão e da roteirista Adriana Falcão. Daqui a pouco, o calendário segue com o primeiro filme latino, Artigas – La Redota, do também fotógrafo Cesar Charlone. Vi na Mostra de São Paulo do ano passado e gostei. Vamos ver se a leitura persiste. Na sequeência, o novo longa da dupla Rubens Rewald e Rossana Foglia, Super Nada, que estrearam com o bom filme Corpo.