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Cultura

Dame Dench, grande Micciché e Bertolucci

por Orlando Margarido — publicado 31/08/2013 18h35, última modificação 02/09/2013 09h21
Eles salvaram o dia em que James Franco se vingou (de nós?)

Que dia! Ou devo dizer agora, que noite! Acabo de jantar depois de uma programação extenuante, e por isso não consegui atualizar o blog. Até mesmo no restaurante Veneza não para. Ao meu lado estava Frederick Wiseman, o grande documentarista americano. Me olhava desconfiado até perguntar se não havíamos já conversado. Sim, falei, por Crazy HOrse, seu filme mostrado aqui há dois anos. Agora ele volta com At Berkeley, sobre a universidade americana, em São Francisco.  Como nos encontramos no mesmo restaurante de há dois anos perguntei se ele filmou o Chez Panisse, um reduto da boa gastronomia em Berkeley, famoso em todo o mundo. Gostou de saber que eu estive por lá e disse para constatar  a conversa que teve com a proprietária. Quero ver e depois conto para vocês.

Mas o dia teve mais surpresas, boas e más. A primeira foi ótima, ainda que dentro de um espirito clássico. Afinal é STephen Frears, que anda fazendo um cinema sem surpresas, mas correto. Philomena é assim, com Judi Dench no papel-título como a mãe católica que anos depois busca o filho que foi obrigada a entregar em adoção quando jovem integrante de um convento. Quem a ajuda é um ex-jornalista em busca de um objetivo de vida depois de ser demitido de um cargo importante no governo inglês. Dame Dench está maravilhosa, mas o pique da história real também é boa.

Em seguida tivemos um balde de água fria. James Franco, ator e diretor que se tornou um ás dos festivais, por vezes com três filmes ao mesmo tempo, como foi o caso em CAnnes deste ano, trouxe Child of God. Me pergunto se foi uma vingança a imprensa que lhe cobra um pouco menos de produção e mais consistência. O filme é uma ode ao masoquismo, ao nos incomodar por mais de hora e meia com um personagem com distúrbio mental que nos Estados Unidos dos anos 50 mata em série garotas do interior para satisfazer-se sexualmente. Ok, a história é de Corman Macarthy, autor cult e que já rendeu boas adaptações ao cinema, mas a escolha deste conto me parece especialmente questionável e sua filmagem com detalhes sórdidos e gratuitos.

Por sorte o colega Zanin, do Estadão, me indicou o documentário sobre o crítico italiano Lino Micciché, que desconhecia, mas por pura distração, pois ele foi presidente da própria BIennale, quando comecei a cobrir o festival. Lino, já falecido, foi uma espécie de Paulo Emílio Salles GOmes local. Atuou na imprensa mas também foi um intelectual de grande envergadura, com atividade política, adminstrativa e no ensino. Fundou o Festival de PEsaro, foi diretor do Centro ESperimentale de CInema, em Roma, e dai vem muito de sua ligação com os diretores do Cinema Novo, como Saraceni e Glauber Rocha, que aparece com Constância no filme realizado por seu filho Francesco. É uma aula para nós desse período, emriquecida com entrevistas de LIno em vários momentos. Um dos depoentes, entre cineastas como Marco Bellocchio, é Bernardo Bertolucci, o presidente do júri desta edição de Veneza. O cineasta italiano também ganhou seu documentário, uma impressionante montagem com apenas entrevistas desde a estréia com La Commare Secca até Eu e VOcê, seu mais recente filme. Fecho de ouro de um realizador que viveu outro cinema novo e definitivo, a  NOuvelle Vague.