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Da Aurora

por Orlando Margarido — publicado 26/01/2012 20h19, última modificação 03/02/2012 15h00

Tiradentes – Enfim, volto a comentar o que tenho visto e ouvido, nos debates, na mostra de de cinema, afinal o motivo que me trouxe até a histórica e graciosa Tiradentes. Tanto material acumulado dos últimos três dias, no entanto, me obriga a analisar em blocos para dar alguma ordem e coerência a programação. Isso porque se trata da seção Aurora, a mais interessante e razão de ser do festival. São jovens participantes, quando não estreantes, os diretores que apresentam seu filme aqui. Três deles já foram exibidos. Começou na segunda-feira com um título da casa. Balança Mas Não Cai é um documentário mineiro de Leonardo Barcelos, um dos integrantes e fundadores da produtora Teia. Você conhece esse coletivo de títulos já exibidos no cinema, como o ótimo Um Céu Sobre os Ombros, de Sérgio Borges. Serginho é roteirista, ao lado de Barcelos, neste investigação de um edifício no centro de Belo Horizonte que há décadas assombra os moradores por sua decadência. Pode-se imaginar essa condição já a partir do titulo, que se apropria da expressão muito popular também vinculada a um programa de TV no passado. O edifício treme-treme em questão chama-se Tupis e foi construído num formato triangular uma nas esquinas hoje mais movimentadas da capital mineira. Está de pé, mas destroçado por dentro, sem nenhum traço dos apartamentos de certo glamour nos anos 40. É neste cenário devastado que a equipe do filme se instala para somar recursos audiovisuais na chave da construção/destruição e convidar antigos moradores a dar seus depoimentos, alguns folclóricos como do “pegador” das empregadas domésticas da redondeza, outros românticos como a senhora que teve ali um casamento feliz.
Parece um quadro auspicioso para uma análise de transformação não apenas pontual, no caso de um prédio, mas do próprio declínio a que estão sujeitas as cidades em um território delimitado como costumam ser as zonas centrais e seus habitantes de diversas classes em variados momentos da trajetória. O que se nota, no entanto, é um desinteresse em aprofundar o material, ordena-lo de modo a formar um compêndio de imagens e situações que melhor costurasse a história da degradação do edifício. Mais ainda, que o contextualizasse no enredo da cidade, a que avista com insistência pelas janelas nuas e que guarda importante significado nessa conjuntura. Quando alcança melhor relação com o “objeto”, o filme sugere ser casual o encontro, como se dá com um morador irregular que coleciona ali entulhos e seus móveis velhos, acontecimento provocado quando as autoridades chegam para anunciar a recuperação do Tupis.
Muito melhor enredado com seu material é As Horas Vulgares, raro representante do cinema capixaba, dirigido por Rodrigo de Oliveira e Vitor Graize. Ainda que de uma irregularidade, que afinal faz ressaltar suas qualidades, temos aqui a tentativa de uma representação geracional não necessariamente local, mas que aguça uma sensação de mal estar da juventude do Espírito Santo. Os diretores, inclusive, destacaram o sentimento na conversa tradicional do dia seguinte ao longa. Baseado num romance dos anos 70, um elemento curioso pois detecta situação similar então e agora, traz a crise de angústia de Lauro expandida para todo seu grupo de amigos que nele o tem como espécie de líder. Seu companheiro mais próximo, Theo, é o mais influenciado pela dor do amigo, aliás como em geral são os homens da turma, o que deixa as mulheres como “graças” lamentadoras da situação. É um filme também sobre a amizade masculina que se mantém sempre a um passo de sugerir um amor maior entre os amigos, sem jamais conduzi-la para o campo da homossexualidade. Nesse ponto, aproxima-se de longas recentes, como Os Monstros e Estrada para Ythaca, ambos do coletivo cearense Alumbramento, do qual faz parte o montador de As Horas Vulgares, Luis Pretti. Num preto-e-branco rigoroso da fotografia de Lucas Barbi, a força do filme, numa trajetória com já foi lida aqui em Tiradentes como sendo de ascendência cristã – Lauro como esse Cristo que se sacrifica pelos demais -- é em muito retirada das imagens, da postura dos personagens, suas atitudes, e menos dos diálogos que por vezes são superficiais, mesmo desnecessários. É até agora o filme que melhor se enquadra na percepção de um cinema de frescor, de risco, que se almeja aqui na mostra.
Não que Corpo Presente, o concorrente paulistano de outra dupla, Marcelo Toledo e Paulo Gregori não nos traga algo semelhante. Mas aqui temos um registro referencial e de homenagem ao próprio cinema, no caso o paulista, da Boca do Lixo e marginal de forma geral. Tres personagens, um agente de funerária (o ótimo Marat Descartes), uma jovem que faz as vezes de cabeleireira e dançarina de boate e outra, empregada numa fábrica, tem seu cotidiano alinhado pelas perspectivas limitadas de vida. Ganha-se aqui muito mais na forma, numa encenação de humor excêntrico em alguns casos, na cor vívida, do que propriamente na ferramenta da dramaturgia. Tenho a impressão que as referências, muito cifradas, dedicadas mais aos cinéfilos, sufocaram um tanto os dramas dos protagonistas. Ainda sim, um filme a se curtir junto com os realizadores em sua proposta também de divertir.