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Corpos que caem

por Orlando Margarido — publicado 30/08/2012 14h29, última modificação 30/08/2012 14h29

Veneza – Caros, maratona iniciada! Ao menos a oficial, a da competição, que para nós os jornalistas é obrigatório seguir, embora, infelizmente, nem sempre venha com os melhores filmes em um festival desta envergadura. Mas para um início até que temos uma razoável perspectiva. Vimos ontem à noite o primeiro do certame, o russo Izmena, ou traição, que à maneira quase de um suspense hitchcockiano faz valer na trama o título até o último fio de cabelo da protagonista. Brinco com a expressão, mas na verdade esses detalhes, como o jeito de mexer e arrumar os cabelos da personagem de Franziska Petri, desde já um atriz a ser considerada para um premio, traz algumas informações adicionais a história. Franziska parece uma Kim Novak russa no jeito como se porta, se veste e, principalmente, manipula os homens a sua volta. Ela é uma médica que recebe no hospital um paciente para exames e lhe diz que sua mulher o trai com o marido. A notícia tem efeito deleterio e, dúvida plantada, leva o marido supostamente traído a buscar indícios. Mais, a própria médica o conduz aos locais onde o casal costuma se encontrar. De repente uma tragédia esclarece a traição. Os corpos dos amantes nus aparecem estatelados no chão em frente ao hotel onde se viam. Acertou quem pensou no Vertigo de Hitchcock, com a perseguição na torre, um corpo que cai. Fim de filme? Não, o diretor Kiril Serebrennikov segue numa espécie de giro falso da história, quando a história se move alguns anos com uma passagem muito bem bolada. Já parece próprio desse novo cinema russo, como o de Sergei Loznitsa, um dos melhores da geração, trabalhar com um registro um tanto surreal mas muito subordinado a dureza dessa estranha Rússia que emerge do capitalismo. Alguns falam em pessimismo, visão sombria, eu prefiro acreditar na alma de um povo, que afinal é aquela há muito exposta por Dostoyevski. Um belo filme, talvez um tanto alongado na proposta, que ganharia mais enxuta.

Não se pode dizer o mesmo do concorrente francês apresentado nesta manhã. Superstar tenta ser uma reflexão sobre o mundo das celebridades, aquele instantâneo, em que comparecem a mídia tradicional, como a TV, mas também a internet e seus instrumentos como redes sociais. Consegue interessar na primeira parte quando Martin (Kad Merad), um funcionário querido numa empresa de reciclagem de computadores, começa a ser subitamente a se celebrado e fotografado no metrô sem saber a razão. A veneração pública por ele cresce na medida em que o enlouquece por não entender a atitude. Até que uma produtora de um programa sensacionalista de TV (Cecile de France) o traz para as câmeras na tentativa de um esclarecimento, o que apenas acirra o caso. Tipo comum alçado à fama, Martin conhecerá então o reverso da história na mesma moeda e rapidez, como o personagem de Roberto Benigni em Roma com Amor, e também em vertente semelhante ao Reality, de Matteo Garrone, apresentado em Cannes. O diretor italiano, aliás, é jurado da seção oficial e seria interessante saber de sua visão do filme de Xavier Giannoli, em muito inferior ao do colega. Talvez até pela Itália flertar melhor com esse mundo munida que é de seus paparazzi. Há muitas incongruências na trama francesa, e quem segura a peteca é mesmo Kad Merad no papel principal, outro a demonstrar desde já aptidão para o prêmio de intérprete. Mas, claro, é cedo para qualquer prospecto, que deve engordar com mais dois concorrentes ainda hoje, com o americano At Any Price, de Ramin Bahrani, do ótimo Goodbye Solo, e o austríaco Ulrich Seidl, que dá sequência a sua trilogia Paradise, com o filme Fé, depois do fraco e controvertido Mulheres, exibido em Cannes. Volto!

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