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Contenção e bom excesso

por Orlando Margarido — publicado 03/06/2012 20h47, última modificação 03/06/2012 20h47

Fortaleza – Depois do ótimo Violeta Foi para o Céu, a segunda noite da competição do CineCeará não decepcionou, embora não me senti tão tocado como na versão dramatizada de Andrés Wood para a vida de Violeta Parra. A essa altura o diretor chileno já deve estar voando para São Paulo, onde apresentará o filme em pré-estréia e terá nova rodada de entrevistas. Tão bom quanto o filme são suas justificativas para essa aproximação tão complexa da vida da intérprete. Vocês verão no dia 7 quando o filme estrear. A programação aqui em cada noite é dividida entre um concorrente nacional e um de língua espanhola. Este abre a noite, precedido pelos curtas. Ontem houve apenas um, Querença, talvez por durar 20 minutos. É um alongamento que se faz sentir em imagens repetitivas, talvez pelo fato da diretora Iziane Filgueiras Mascarenhas ter se encantado demais pelo estilo e a bela fotografia de Antonio Luiz Mendes, seu marido. Ainda sim sua revisitação do cangaço através da visão feminina da traição e do triangulo amoroso se sustenta e tem seu interesse. A diretora é cearense e ouviu especialistas sobre o tema para chegar ao formato, que me dei conta em matéria recente para a CartaCapital, é polêmico, com visões distintas e fatos nem sempre comprovados. Uma imagem é simbólica disso, quando um cangaceiro aparece costurando suas roupas numa Singer. Iziane explicou que o importante era contextualizar como aquele universo sobrevivia por si só, antes e depois da chegada das mulheres.
O convidado latino, em seguida, era o filme guatemalteco Distancia, de Sergio Ramirez. Raridade do cinema daquele país, traz orçamento apertado de 25 mil dólares e atores não profissionais para acompanhar o percurso de um velho trabalhador de mina que descobre que sua filha desaparecida quando criança no governo militar está viva. Passaram-se 20 anos e o reencontro dos dois não tem apenas o obstáculo do tempo, da falta de reconhecimento e intimidade, mas também da língua. Falam dialetos indígenas diferentes e ela não fala espanhol como o pai. Precisam de um tradutor para se comunicarem, o que esfria o reencontro a princípio, mas logo a língua do sentimento fala mais alto. Singelo, tocante, o filme é na verdade uma representação das diferenças culturais e sociais gigantescas desse pequeno país, e propõe um alcance político ao tocar nos desaparecidos e mortos da longa ditadura de mais de 30 anos que começam a ter seus restos encontrados em valas comuns. Me passou uma idéia de desafio numa enxuta cinematografia que mal conhecemos.
Quase em oposição a contenção de Distancia, temos a explosão de energia e originalidade do documentário Futuro do Pretérito: Tropicalismo Now!, que pelo título vocês já advinham do que trata. O tropicalismo está sendo resgatado como objeto de estudo, e mesmo festejado, desde Uma Noite em 67, e no recente filme que ostenta o movimento no título, de Marcelo Machado. São dois ótimos documentários que agora ganhar a colaboração deste de Ninho Moraes e Francisco César Filho. Aqui o caminho de apreensão do tema se divide entre entrevistas mais tradicionais no formato, mas com argumentos interessantes, e o luxo de um show coordenado com exclusividade por André Abujamra no Teatro Oficina. O filme deve muito a essa aproximação musical, na qual podemos relembrar canções simbólicas e outras não muito conhecidas, fazendo uma costura com os depoimentos. Como foi lembrado hoje na coletiva, o paradoxo do Tropicalismo entre ser um movimento liberal diversificado e contra um nacionalismo de esquerda vigente, ao mesmo tempo que ao buscar o popular teria aberto o caminho a massificação e portanto a uma possível mediocrização, é tema de confronto difícil. Os diretores expõe essa nuança em entrevistas interessantes como dos sociólogos Marcelo Ridenti e Laymert Garcia dos Santos. Também do diretor da Companhia Latão, Sérgio Carvalho, que trouxe uma crítica ao auê tropicalista na recente peça Ópera dos Vivos. Enfim, mais uma colaboração importante ao debate, que tem se alimentado de polemicas, como a recente análise (curioso que tardia) de Roberto Schwartz ao Verdade Tropical de Caetano Veloso. E que aliás, aponte-se a boa decisão dos diretores, não surge aqui para carimbar sua opinião onipresente.

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