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Brasília em bloco

por Orlando Margarido — publicado 22/09/2012 21h18, última modificação 24/09/2012 20h31

Brasília – Correria por aqui com dois longas por noite, mais os curtas, os debates no dia seguinte, seminário Paulo Emilio e reunião da Abraccine, a nossa entidade dos críticos. E houve até incêndio anteontem aqui no hotel onde imprensa, equipes dos filmes e demais convidados ficam hospedados. O resultado é que o blog ficou atrasado. Atualizo agora em blocos da competitiva.
Kátia – O documentário sobre a travesti do interior do Piauí que foi a primeira a ocupar um cargo público no País tem no seu personagem as vantagens e as desvantagens do trabalho no gênero. Kátia é uma daquelas figuras de imediata empatia com o espectador, o que se confirmou com a boa receptividade da plateia brasiliense. É, sem trocadilhos, o homem e a mulher da casa, na lida diária com sua pequena propriedade numa cidadezinha do estado, suas criações de animais e os desafios da terra seca. Soma-se a isso a necessidade de se impor na sua condição sexual e, claro, o desejo político que já a levou a ser vereadora e vice-prefeita. A diretora Karla Holanda, sua conterrânea, acompanha Kátia nesse cotidiano e se deixa levar pela força da personagem sem muito interferir, o que é um tanto inevitável nesses casos, como ela mesmo aceita. Mas diferente do gaiteiro Dirceu no doc de Ana Johann, temos uma melhor elaboração e sentido mais claro de um objetivo a seguir. Inclusive na elaboração estética, mais caprichada.
A Memória que me Contam – Fiquei tocado pelo novo mergulho de Lucia Murat nos anos pesados da ditadura e sua experiência pessoal no período como guerrilheira. E foi mais pela emoção que me chegou essa ficção que forma um interessante díptico, ainda que não de encaixe perfeito, com o filme anterior da diretora, o documentário Uma Longa Viagem, sobre o mesmo período a partir de uma reflexão da trajetória libertária do irmão. Esse é um tema compreensivelmente obsessivo para a cineasta e por isso mesmo ela se joga sem os limites que talvez se espere de uma análise mais ponderada, distante o suficiente para evitar equívocos. E eles existem neste drama que reúne velhos companheiros que pegaram em armas para uma revisão do período no momento em que uma das combatentes mais queridas do grupo está à morte. Ana, seu nome, nos surgirá apenas como uma imagem recorrente dos amigos na figura de Simone Spoladore. Para Lúcia, ela evoca a colega Vera Lúcia Magalhães, uma das participantes do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick. Presa, foi torturada e nunca conseguiu se livrar do trauma. Psicótica, morreu de infarto há cinco anos.
São várias as figuras reais que circulam no filme, como o guerrilheiro italiano exilado no Brasil, preso e perseguido por um processo de extradição por parte da Itália (papel de Franco Nero). Sugere Cesare Battisti, mas a diretora alega não ter sido ele a inspiração, e sim um dono de restaurante e companheiro da atriz Maria Lucia Dahl, em caso que mobilizou o noticiário à época. Mesmo a diretora elege seu alter-ego na personagem de Irene Ravache, uma cineasta que é epicentro no drama, e não por acaso a atriz responsável pelas cenas ficcionais no filme de estréia de Lúcia, Que Bom Te Ver Viva, premiado no festival. Com essa estrutura, o filme se lança a um contraponto entre rever as questões caras aos militantes a luz dos desdobramentos décadas depois e uma tentativa de investigar o entendimento do período pela nova geração. Melhor se sai no primeiro tópico, ainda que com ressalvas a certo esquematismo, do que na segunda. Conversei com Lúcia sobre a idéia do filme como um fecho nesse seu interesse pelo período, e ela concorda que será difícil alcançar um estímulo ainda maior para novas produções. Comentamos ainda a bela e delicada cena de sexo gay entre o filho da cineasta e seu parceiro, de rara abordagem no cinema nacional. Naquela época, diz ela, era um tema difícil entre os companheiros. Achou que era necessário agora apontar também que os tempos mudaram para a sexualidade.
Otto – Não fosse a assinatura que leva, o documentário sobre um encontro amoroso do tipo “à primeira vista” e seu desdobramento para uma união e um filho pareceria banal. Mas é Cao Guimarães quem nos propõe esse singelo ensaio acerca de seu envolvimento com atual mulher Florencia, ou Flor, de origem uruguaia, e o nascimento do bebê de nove meses agora. Otto, ele se chama numa referência simbólica de um palíndromo, é razão e ponto de partida para o filme, mas quem o conduzirá na verdade é Flor, do início da gestação mostrada em Istambul, onde o casal se encontrava, até o protagonista surgir. Quem segue o sofisticado trabalho de Cao, em muito devedor da videoarte, pois artista dessa vertente que é também, pode imaginar que não é explícito e óbvio seu registro aqui. Ele se vale de imagens de tempo e espaço, ou seja, momentos lacunares e de interiores e exteriores que simbolizam a relação, com alguma narrativa em off, para construir o mundo de intimidade e felicidade que tomou sua vida naquele período. O que não descarta certa melancolia no trato, pois nunca se chegará, digamos, a um ápice de celebração. Cao evita mesmo expor o parto. O faz pelas arestas, o chão da sala de cirurgia, os médicos em torno, a criança em seu primeiro banho. Questionei-o sobre essa tristeza, que ele acredita fazer parte de seu cinema, de Alma do Osso ou Andarilho, por exemplo. Pode ser triste, mas encanta.
Bloco pernambucano – Vocês já devem ter notado que o cinema de Pernambuco domina Brasília este ano, e se isso pode ser saudado pela qualidade ao menos para um bom debate, é motivo de reclamação local. Os realizadores brasilienses se queixam de haver apenas um curta selecionado na competição, e quem gritou nos jornais por uma revisão disto foi ninguém menos que Vladimir Carvalho, cineasta e mestre de toda uma geração aqui e pelo Brasil. Depois de Boa Sorte, Meu Amor, de Daniel Aragão, tivemos ainda ontem à noite o novo de Marcelo Gomes, Era Uma Vez Eu, Verônica, e o doc de Gabriel Mascaro, Doméstica. Ele ainda concorre com um curta, A Onda Traz, o Vento Leva, que adiciono depois neste post. Só para complementar, vale lembrar que O Som ao Redor foi exibido a pouco em mostra paralela, pois já premiado no Festival de Gramado. O que torna interessante ve-los em bloco é se dar conta de uma constante temática que os une: a questão urbana do Recife, sua renovação predatória dos grandes edifícios, a deterioração do centro, e as relações sociais que se alteram determinadas por esse conflito. No filme de Aragão as questões se fazem presente mas ficam um tanto encobertas por um excesso de estilização e referências cinematográficas que podem cansar quem tenta seguir o conflito principal. Foi minha experiência no filme, que no entanto não tirou o interesse de acompanhar o encontro entre um jovem da classe alta da praia da Boa Viagem, herdeiro de fazenda que não mais quer saber de suas raízes, como uma garota que se sustenta com bicos e sonha em se estabelecer como pianista. A trama segue os choques inevitáveis das diferenças sociais, mas talvez mais de cunho pessoal, que levará a modificar o rapaz mais do que sua amada. Com menos retoques, esse embate poderia surgir realçado e fazer bem ao filme.
De uma certa forma, percorri o caminho contrário com Doméstica, entusiasmado por saber o que Mascaro faria com esse material do lado B, digamos assim, de seu filme anterior, Um Lugar ao Sol. Neste ele se dedicava aos moradores de coberturas do Recife e outras capitais e apesar de um bom enfrentamento com o tema, sua estratégia de expo-los em certo contraste entre o ridículo e a veracidade me incomodou. Há outro dispositivo agora quando vai “aos fundos” das ricas residências recifenses, e de outras cidades também, para interpelar como vivem e pensam as empregadas de longa data dessas famílias. Mascaro colocou câmeras nas mãos dos jovens adolescentes dessa classe alta e supervisionou-os no registro das entrevistas. Há relatos impactante, como a da doméstica que não passou os últimos dias com seu filho assassinado porque cuidava de um idoso na casa dos patrões. Ou do único homem que faz serviços domésticos depois de esquecido pelos filhos. Em boa parte, no entanto, há certa redundância no cotidiano das personagens, mesmo porque esperado nesta forma de trabalho que se mostra similar nos cantos do país. Significativo apenas que é uma tradição fadada a acabar para as novas gerações e nesse sentido Mascaro talvez reúna um documento importante para ser revisto no futuro.

Melhor impacto Mascaro consegue no curta-metragem. A Onda Traz, o Vento Leva faz o recorte de um único personagem real, um jovem deficiente auditivo que simbolicamente trabalha instalando som em carros. Vive num reduto pobre com a mãe e a pequena filha, de quem cuida com esmero, entre o rigor da educação e o carinho. Talvez até com maior esmero, porque mudo, precisa se comunicar com ela de modo mais corporal, seja na linguagem dos surdos ou nos gestos incisivos. Mascaro nos apresenta a Rodrigo, seu nome, com vagar, no seu cotidiano em contato com os moradores, num relato franco e divertido sobre suas transas com mulheres e numa visita ao médico, na qual sabemos ser portador de HIV. Em tempo, como nas relações entre os longas de Mascaro, o curta parece surgir do mesmo universo de Avenida Brasília Formosa, filme que contemplava situações e tipos desse singular bairro homônimo de classe baixa do Recife situado na orla da cidade. Evidente ainda uma maior elaboração estética e da condução do relato em relação a Doméstica, já que no domínio completo da obra está o diretor.

Por fim, e não é pouco, temos o precioso filme de Marcelo Gomes, que vocês conhecem de Cinema, Aspirina e Urubus e das parcerias com Karim Ainouz. O título antecipa muito do tom e foco da obra. Era uma Vez Eu, Verônica é, numa síntese temerária, o drama de uma jovem da classe média do Recife centrada em suas dúvidas de existência, da profissão de médica que começa a exercer às relações amorosas fortuitas contrapostas a um caso mais sério. Dito assim parece banal, e em certo sentido o é, mas vem daí a possibilidade de Gomes ir aos poucos recheando os sulcos dessa vida comezinha com dados significativos e preponderantes na trama. Verônica tem na sua construção um movimento recorrente de atitude impositiva a vida e num retorno a esta uma resposta em mesmo grau de importância. Assim, tem com o pai uma relação extremamente próxima e afetiva mas terá de enfrentar uma doença terminal que o abate; como psiquiatra, lida com certa ingenuidade e estímulo de novata com os pacientes que querem ser ouvidos e atendidos na prescrição rápida de um medicamento, o que a grande demanda nem sempre possibilita, e a resposta a isso Verônica sentirá literalmente na cara numa cusparada de um paciente mais exaltado; também em seu desejo incontido de relações sexuais não satisfeito por um parceiro habitual, a jovem procura o efêmero, e quando encontra não se importa em desprezá-lo. Nessa toada, o filme acolhe a protagonista em uma eterna insatisfação que parece tão comum ao mundo contemporâneo, quando não a qualquer outra no passado, pois afinal um sentimento crônico do ser humano.

Gomes nunca perde os dois prismas, o geral, o genérico, o exterior, inclusive enredando a questão da cidade tão cara a seus colegas mais jovens, e aquele individual, íntimo e, portanto, interior da personagem. Isto é simbolizado pelos detalhes, como nas referências sutis a personalidade do pai, um aposentado e velho homem de esquerda, apreciador de polcas e frevos, que ensina, digamos, a dureza da vida a filha. Por sua vez, Verônica levanta seus dilemas em voz alta para um gravador, como num recurso de repetição exaustiva típica da estudante que era até pouco tempo. Todo essa delicada construção somada as grandes interpretações de Hermila Guedes, franca favorita ao prêmio de atriz que saberemos logo mais à noite, e do ator paraibano W.J. Solha, aos poucos reconhecido pelo cinema, no papel do pai, nos dão uma pérola rara no cinema nacional atual.