Sem categoria

Boas surpresas

por Orlando Margarido — publicado 19/05/2012 16h21, última modificação 19/05/2012 16h21

Cannes – Acabo de sair da rodada de entrevistas com a equipe de No, o filme do chileno Pablo Larraín que comentei ontem aqui e integra a Quinzena dos Realizadores. Rodada inesperada, pois na verdade só haviam me prometido um bate-papo com o diretor, mas acabei por conseguir também falar com Gael García Bernal e Alfredo Castro. Bernal dispensa apresentações, é um ator mexicano de currículo internacional, já trabalhou com os nossos Walter Salles e Fernando Meirelles. Castro é o “muso” de Larraín, seu intérprete preferido, e de Toni Maneiro e Post Mortem completa agora com No a trilogia sobre o longo período Pinochet. Larraín era criança quando um referendo pos fim a era do militar no poder e por ter aquilo tudo obscuro na sua cabeça tenta entender sua própria história. O novo filme é justamente sobre esse plebiscito de 1988 que dividiu o país entre favoráveis ao ditador e seus opositores, o “sim” e o “não”. Em casa, Larraín viu seus pais votarem pelo fim e não compreendia o que se passava. Quando o país se redemocratizou, com eleições e um congresso funcionando, seu pai tornou-se um senador e se opôs aos militares. O diretor, claro, não gosta muito de repisar o tema, prefere que perguntem ao político sobre suas posições durante e depois de Pinochet. Há quem diga, lembra ele, que há aí uma situação freudiana a ser psicanalisada e seus filmes seriam a via desse acerto. Mostra Pinochet como um palhaço, um tipo pouco esperto que apenas se valia de uma manipulação rasa dos que estavam a sua volta. Há várias cenas do filme com discursos quase infantis seus. Para que a imagem das antigas gravações não destoassem, Larraín escolheu um registro das primeiras experiências em vídeo para filmar. Combina com a época em que publicidade estava se tornando instrumento importante nas campanhas políticas e Bernal faz o jovem ex-exilado que volta disposto a mudar a situação. Trabalha pelo não, enquanto seu chefe vivido por Castro pelo sim da continuidade. O ator passou a adolescência no período obscuro e atenta que agora sua classe profissional, embora não mais cerceada pela ditadura, tampouco tem trabalho na área. Muitos vivem de bicos. Ele tem seus papéis na televisão e sabe que os filmes com Larraín não produzem grande efeito, nem como reflexão do período, nem como bilheteria. Espera que a nova geração mude essa relação com a história chilena a partir de fatos como o mostrado em No. A história tem seu fundo verídico, mas foi transformada em peça teatral por Antonio Skarmeta, de O Carteiro e o Poeta, e se mantém inédita. Não havia dito, mas o filme tem co-produção brasileira e distribuição garantida por aí. Seria interessante que também Post Mortem fosse visto no Brasil, fechando a trilogia.
Me estendi demais em No, e não terei tempo de dar a importância merecida a Beyond the Hills, do romeno Christian Mungiu, vencedor da Palma de Ouro por 3 Meses... Ele sai do ambiente urbano e de um drama sobre aborto para uma comunidade de religiosas rural de cristãos ortodoxos comandada por um patriarca. Ali chega para encontrar uma ex-companheira de orfanato, agora freira, uma jovem problemática que apresenta estranhos espasmos e ataca a todos. Um médico não chega a um diagnóstico e a situação só piora. Se você pensou em possessão, acertou. Um exorcismo é feito. A jovem não resiste. Como a polícia tratará o caso é deixado ao espectador refletir. Mais ainda perturbador é saber que se trata de um fato real. Mungiu leva seu drama por duas horas e meia com muito rigor e atenção aos mistérios desse personagens e do seu universo religioso. A opinião ficou dividida entre os colegas brasileiros presentes aqui, mas eu vejo o filme como o primeiro a ter força para discussão e, claro um prêmio, um dos principais ou a própria Palma.
Dívida
Fiquei em dívida sobre Reality, o filme de Matteo Garrone, de Gomorra, que vi hoje de manhã. Não temos seguramente o repeteco deste em termos de impacto, mas agrada a comédia dramática do italiano que aborda o tema dos reality shows. O “Grande Fratello” aqui, ou Big Brother para nós, vai se tornando aos poucos um sonho obsessivo de um peixeiro de Nápoles e sua família. Ele passa nas primeiras provas, mas termina por não ser aceito, o que gera frustração e um trauma. A crítica a uma condição apelativa e de pobreza temática a TV italiana, e no mais a tantas outras do mundo, é evidente, mas feita com humor e afeto pelos personagens. Em especial, o protagonista, interpretado pelo estreante Aniello Arena, desde já boa alternativa ao prêmio de melhor ator.

registrado em: