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Boas fábulas

por Orlando Margarido — publicado 15/02/2012 18h57, última modificação 15/02/2012 18h57

Berlim – olá, acabo de entregar meu material desta semana para a Carta Capital e repasso agora para vocês a agenda do dia. Meu último compromisso foi uma entrevista em grupo com Brillante Mendoza, o diretor filipino de Captive. Já havia o entrevistado algumas vezes, inclusive em Veneza há dois anos quando ele se preparava para uma retrospectiva em São Paulo. Foi lá que ele encontrou por acaso Isabelle Huppert, que se apresentava no teatro, e a convidou para o novo filme. Eu queria justamente que ele falasse do trabalho com a atriz para o perfil que faço dela na próxima edição da Carta. Claro que nem se questiona o talento, mas o que ele viu nela especificamente para esse papel era o que eu queria saber. Ele disse que sempre busca a colaboração dos atores, ter o melhor deles para um filme e falou da impressionante improvisação de Huppert na cena em que ela acolhe literalmente nos braços, no colo, o menino já tomado pelo radicalismo muçulmano. A cena é realmente bela, a mais incômoda também, pois a personagem, uma das sequestradas, também é mãe e está transferindo ali a saudade da prole. Fora isso, Mendoza articula muito bem o que quer de seu cinema, social e pontual as vezes como Lola, ou mais ambicioso como este Captive. Espero que alguém compre o filme para haver chance de expor suas idéias.
Melhor ainda foi a conversa de manhã com outros jornalistas brasileiros e um português penetra, como brincamos, em torno de Miguel Gomes. Todos ali gostaram de Tabu, mas a entrevista foi fundo, não apenas centradas em elogios. Gomes é um realizador muito peculiar no cenário não apenas português, mas creio que já se pode dizer até mundial. Não bebe das fontes realistas do cinema, inclusive foge delas. Seus filmes são oníricos, fabulares, como se viu principalmente na estréia A Cara que Mereces. Em Tabu, há a fábula no início do explorador que na África é comido por um crocodilo. Depois há sonhos de Aurora, já senil, que terá seu romance quando jovem recontado na segunda parte, em preto-e-branco e sem som. Um narrador toma a vez dos diálogos. É um drama romântico digno de Camilo Castello Branco e seu Amor de Perdição, referência assumida do diretor. Antes da entrevista, soubemos pelo assessor de imprensa alemão que os jornalistas locais se dividiram na aceitação do filme. Em parte, a questão colonial das conquistas de Portugal na África, onde a metade referente ao passado se dá, talvez não seja bem compreendida. De qualquer forma, a tabela da revista Screen publicada diariamente no festival com a cotação de jornalistas convidados coloca o filme na segunda posição, atrás somente de Barbara, concorrente alemão. Só vi agora que José Carlos Avellar, um dos críticos votantes, deu apenas duas estrelas, entre quatro, ao filme. Fiquei curioso em saber suas razões. Tenho dúvidas no entanto se este júri assumirá um projeto tão radical, especialmente se comparada a fraca competição que vimos até agora. Para mim, só aceito Tabu perder para Cesare Deve Morrire, dos Taviani. Na saída, duas piadas a Gomes. A primeira diz respeito ao único brasileiro escalado no elenco, Ivo Muller, ator de teatro que encena atualmente Doze Homens e uma Sentença. Cobramos do diretor, com bom humor, seu papel como o corno da história. Ele foi rápido: “mas não se esqueça que ele representa um português”. Na despedida, ironizei: “espero que você dê a última gargalhada”. Referência ao filme de Murnau que é o cineasta icônico desse filme, com título inclusive em sua homenagem.
O resultado desses encontros durante o dia é que só pude assistir duas das três horas do épico chinês de Wang Quan’an, White Deer Plain. Quan’an esteve aqui há dois anos com Tuan Yan, sobre um casal separado na juventude pela divisão da cidade de Shangai e que se reencontra na velhice. Bonito, o filme mereceu o premio de melhor roteiro. Agora o diretor é mais ambicioso com o relato de um jovem casal de um vilarejo que se vê apanhado na reviravolta da revolução comunista, tendo de se adaptar da fase das dinastias imperiais para o governo truculento de Mao. Até onde pude seguir, a história recua e avança no tempo e alguns fatos são por demais repisados. Mas o filme é belíssimo, com imagens estonteantes. A julgar pelo registro realista que Gomes tanto despreza mas Mike Leigh adora, não será estranho se merecer algum prêmio. E não deixaria de demonstrar também algum vínculo com a atual pujança econômica chinesa que tanto deve atiçar os festivais e seus produtores em buscar de financiamentos.
Ao menos mais original foi Postcards from the Zoo, concorrente da Indonésia. A assinatura da direção é simplesmente de Edwin, que imagino homem mas como não consegui checar na coletiva vejo depois na internet e confirmo a vocês. Uma criança é abandonada no zoológico de Jacarta e cresce uma jovem interessada nos animais, vivendo em torno do cotidiano da instituição. Mas uma lei determina que ela e outros personagens que haviam se instalado no zoo devem deixar o local. A jovem conhece então um mágico e acaba indo trabalhar numa casa de massagem para homens. Dito assim parece apenas uma história pequena bem contada, mas há uma simbologia e um estranhamento interessantes explorados pelo realizador/a, inclusive ao utilizar cartelas de explicações óbvias, mas irônicas, sobre por exemplo o que é um zoológico. Este tipo de abordagem cai bem aos asiáticos, como faz Apichatpong ou Eric Khoo, que inclusive adota um protagonista mágico também em um de seus filmes. Postcards poderia ir mais longe nessa condição peculiar de fantasia, e talvez por isso acabe apenas como curiosidade na vitrine da competição. Paro por aqui para comer algo antes da sessão de A Royal Affair, co-produção escandinava com longas duas horas de duração. A essa altura, preferia algo mais sintético. Mas vamos lá!

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