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Bela extravagância

por Orlando Margarido — publicado 21/01/2013 20h53, última modificação 21/01/2013 20h53

Tiradentes – Daqui a pouco tem início a Mostra Aurora com o documentário do mineiro Pablo Lobato, Ventos de Valls. É a seção competitiva e que por isso mesmo costuma atrair as discussões mais interessantes e acirradas. Mas ontem a noite já subiu um tanto a temperatura dos debates, logo depois de uma chuvarada por aqui. Foi por conta de Doce Amianto, a ficção da dupla cearense Guto Parente e Uirá dos Reis. Guto integra o coletivo Alumbramento, jovens com total liberdade estética e temática que já nos deram longas interessantes como Estrada para Ythaca e trabalham em sintonia de colaboração com outros grupos como a Teia, de Minas. Uirá é parceiro de elenco constante dos “alumbrados”. Juntos, a partir de um roteiro de Uirá, trouxeram um filme extravagante, feito de excessos e referências várias, cinematográficas, plásticas e mesmo literárias que conquistou a platéia e boa parte dos jornalistas aqui presentes.
Há humor e também amargura e melancolia tratados no registro quase irreverente nesta história. A doce amianto do título (Deynne Augusto) é uma transexual que sofre a rejeição de um rapaz com quem passou a viver junto e ao se recolher recebe a companhia do espírito de um rapaz assassinado (o próprio Uirá). Este se apresenta também travestido, barba e quilos de maquiagem. Ambos repassam sua trajetória recente, o primeiro na tentativa de superar sua diferença perante o mundo, o segundo refletindo sobre o destino a que chegou também por ser vítima da diferença, quando certo dia bolas coloridas lhe estouram por todo o corpo. Evidente metáfora da AIDS, mas também da simples diversidade sexual. O filme abre com uma epígrafe de Leonilson, o artista cearense que se tornou um dos maiores nomes da cena brasileira e morto precocemente pelo HIV. Refere-se a Voilá mon Coeur, seu trabalho sobre tecido, como eram quase todos, com diversos pingentes de cristal bordados nele, sobras de um candelabro quebrado. Doce Amianto é isso, um tipo de outra identidade sexual a qual seu corpo não responde e jogado ao chão, partido ao meio, como se mostra no início do filme. A questão é que Parente e Uirá trabalham na forma do exagero, do irreal, mas ao mesmo tempo com signos que são da realidade do universo gay e suas paródias, imitações, deboches. Quase todo o tempo sugerem mais humor, caricatura, do que reflexão, aprofundamento. Isso incomoda, e é feito com tal intenção. Como bem sublinhou o crítico Denilson Lopes no debate desta manhã, os realizadores se valem da tradição “camp” do cinema, e vocês saberão bem o que significa ao lembrar dos filmes de John Waters. Falou-se em David Lynch, e lá está, mas eu embarquei mais na viagem de novos realizadores portugueses, como Miguel Gomes, em seus curtas-metragens, João Nicolau e João Pedro Rodrigues. Nem todos entenderão assim, e não entenderam. Conversamos muito hoje no almoço, eu, Inácio Araújo e Sheila, sua mulher, professora e pesquisadora de cinema, que refutaram o filme por completo. Falam de uma estrutura precária, uma feiura, uma falta de elegância. Para mim, é justamente o que fala mais do filme, uma qualidade de saber reunir referências universais a partir de um conhecimento do local, sem no entanto ser regional. Enfim, um filme para se reter algo.
Poderia dizer quase o inverso de A Balada do Provisório, que foi apresentado antes. O longa do carioca Felipe David Rodrigues evoca a figura do malandro que anda novamente em evidência com Os Penetras, e tem tradição, claro, desde a chanchada e depois renovada por Hugo Carvana. No caso, é André Provisório (Edson Zille) o trambiqueiro em questão, que vive de vender drogas e faz bicos como o de investigador particular. Mas sua figura não cria grande empatia com o espectador e a narrativa, com poucas situações agregarias ao tipo malandro, que poderiam ser mais cômicas, mas não necessariamente. Aposta-se mais no romance com uma bela e jovem atriz (Clara Maria), que tampouco mostra grande química. Também tributário de referências ao cinema, o diretor faz tanto um inverso dos colegas cearenses, revelando uma homenagem direta a Acossado e outros Godard, aproveitando a facha de conquistador barato de Belmondo e também a beleza de sua intérprete semelhante a Anna Karina nos filmes seguintes do francês. Mas isso não sustenta toda a narrativa, tão morosa e sem pique, que encanta se tanto pelo preto e branco emprestado a uma cidade que faz das cores seu triunfo e um núcleo final, quando entram em cena os pais Provisório, vividos por Helena Ignez e Otávio III.

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