Cultura

65 Festival de Berlim

Até tu, gaúcho?

por Orlando Margarido — publicado 07/02/2015 16h08, última modificação 15/05/2015 17h22
Beira-Mar, entre as cinco ficções brasileiras estreantes na Berlinale, traz de volta o universo gay marcante aqui o ano passado com Praia do Futuro e Hoje Eu Quero Voltar Sozinho
beiramar.jpg

Beira-Mar: a praia como descoberta

Poderia se chamar, quem sabe, Praia de Tramandaí. Mas o título do filme da dupla gaúcha Filipe Matzembacher e Marcio Reolon é apenas Beira-Mar. Não passou despercebido aos jornalistas brasileiros a questão da temática de gênero, no caso a homossexual masculina, retornar depois da repercussão por aqui no ano passado do filme de Karim Ainouz e Daniel Ribeiro, este premiado no Panorama na tríplice visão da crítica, júri oficial e público. Mas o filme traz outra reflexão interessante. Os realizadores de Porto Alegre parecem ter qualquer coisa de especial na sua relação com o litoral próximo que não está vinculado nem a suposta beleza do cenário nem ao apelo mais erotizado do verão, com os corpos bronzeados e desnudos á vista. Com isso, apenas em parte mimetizam certa ideia muito presente num contexto do cinema brasileiro, e mais especificamente, de origem nordestina, onde a chegada ao mar tem outro conceito. Entre os gaúchos, parece ter mais a ver com uma viagem interiorizada, de descobertas pessoais, e por isso o clima é sempre frio, cinza, melancólico mesmo. Também há o vazio, aquele de um local que em vez se espera ocupado por turistas, mas também de identidade, de quem não sabe ao certo seu destino. Nessa toada seguiu o bonito filme de Fabiano de Souza, A Última Estrada da Praia, e não poderia ser diferente ao tomar como inspiração o estranho livro de Dyonélio Machado, O Louco do Cati.

Em outra vertente de curiosa habilidade, os gaúchos parecem ter boa mão na análise das dificuldades e expectativas juvenis, daquelas da primeira adolescência, como no filme de Ana Luíza Azevedo,Onde o Mundo Acaba, ou na estréia de Jorge Furtado, Houve uma Vez Dois Verões,até a tardia, quando tem início certo amadurecimento, caso deste Beira-Mar. Unindo esses duas linhas temáticas, sem tomar mais a fundo nem uma nem outra, tem-se aqui uma narrativa modesta, pequena em sua ambição, mas definidora com delicadeza de um momento. Este é o companheirismo dos dois jovens protagonistas, Martin e Tomaz, que seguem de carro para a casa de praia do primeiro, incumbido pelo pai de resgatar um documento na família que lá mora. Mas eles também querem aproveitar com festas, bebidas e garotas. Desde o início, em verdade, as consequências que virão na relação de ambos estão esboçadas, mas não a forma de como elas se darão. Os diretores trabalham com contenção a virada, mas jogam com alguns lances definidos, como a opção sexual de Tomaz, em contraste com a dúvida do colega. Melhor que não buscassem maior pretensão pois o retrato ficou assim mais verdadeiro e afinado a uma geração que desde cedo se impõe no direito a expressão.

Sangue bom

Fora da competição oficial este ano, o Brasil não faz feio em sua representação nas paralelas. Quem imaginar que apenas o movimento gay é o preferido pela Berlinale pode buscar no filme de Lírio Ferreira, Sangue Azul, a representação do macho hetero que não deixa passar uma, no caso o personagem de Daniel Oliveira. O longa de Lírio, bonito em suas correspondências com o universo do circo e mesmo referências cinematográficas como Fellini, falha no entanto na falta de melhor alinhamento das várias tramas em cena. Ainda assim está longe de ser trabalho dispensável. Não falta versatilidade de linguagens também, e Brasil S/A, de Marcelo Pedroso é um raríssimo registro de cunho formalista, no melhor sentido, que procura dar conta da nossa complexa nação. De volta a sensibilidade, sem tirar do foco a questão social e da classe média que tanto lhe interessa, Chico Teixeira traz o belo e corajoso Ausência, no qual problemas de um jovem em tradicional bairro paulistano o pressionam entre a falta do pai, o desequilíbrio da mãe, e a figura idealizada de um professor. Parece ser de viés conturbado também a relação entre mãe e filha em Que Horas Ela Volta?, o filme de Anna Muylaert que chega premiado de Sundance, no caso para as atrizes Regina Casé e Camila Márdila.Mas este ainda vamos conferir po aqui.CartaCapital