Cultura

Os filmes, o desejo da invenção e o limite para ambos

Até o bagre

por Orlando Margarido — publicado 29/01/2014 18h37

Tiradentes -- No post anterior coloquei como titulo A Tiradentes da experimentação. Essa idéia dos filmes se posicionarem mais pela forma do que pela narrativa é tão expressiva aqui que logo mais veremos um longa na Mostra Aurora que se apresenta no registro como experimental -- não como o convencional ficção ou documentário,que pelo jeito por aqui ficou ultrapassado. Mas a que custo temos, digamos, essa reinterpretação da linguagem? Ontem vimos o exemplo da possível confusão e desacerto do que essa, diga-se entre aspas, invenção pode gerar. O segundo longa-metragem da seção competitiva, O Bagre Africano de Ataléia, tem de início uma perspectiva interessante. Toma-se um credo popular, entre a história comprovada e a lenda, de que os bagres costumam atacar animais e pessoas numa pequena comunidade mineira. Mais, de que há um homem-bagre que surge soturno nas noites do local. Prepara-se então uma caça, em forma de pescaria, liderada por um conhecedor desses peixes. Há rituais, como a preparação das armas e a visita ao benzedeiro. Ou seja, há o fantástico e há o real, mesmo que seja uma realidade tomada por crendices, que passam a se moldar no mesmo plano de invenção do filme, sem que se afirme bem em nenhum deles. Até aí talvez nenhum grande problema. Faz parte da arte testar nosso poder imaginário, mas não quando a todo momento ele é quebrado pela interrupção abrupta, do choque de uma realidade nem sempre muito vigorosa, ou para ser mais direto, interessante. O exemplo mais gritante disso é quando o homem-bagre surge numa máscara duvidosa. Os diretores Aline X e Gustavo Jardim bebem em fontes bem reconhecíveis para criar seu universo, como o portuguës Miguel Gomes, o tailandës Apichatpong Weerasethakul e o mexicano Carlos Reygadas. Há bons momentos no filme, mas quase todos eles isolados, prova justamente do difícil entrelaçamento entre a realidade e a invenção.