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Apenas promessas

por Orlando Margarido — publicado 08/02/2013 18h45, última modificação 08/02/2013 18h45

Berlim – Primeiro dia na prática da Berlinale com os primeiros filmes da competição. Agitadíssimo, e só não vou dizer fervendo porque nevou com alguma força hoje de manhã e início da tarde, o que exige cuidado redobrado para quem não tem, como eu, prática no chão escorregadio. Para mim acabaram por ser três filmes até este momento, e vou para o quarto título daqui a pouco. Isso porque decidi não apelar para a sessão que toda noite antecipa o terceiro competidor do dia seguinte. Me poupei ainda para algum sono depois de longa viagem. Mas confesso que também estava com muita restrição para conhecer o filme que fecha a trilogia do austríaco Ulrich Seidl. Chama-se no todo Paradies, ou Paraíso, e cada um tem um subtítulo, Amor, Fé e agora, Esperança. O diretor fechou o trio de festivais, primeiro Cannes, depois Veneza e agora Berlim. Seidl é um realizador da chave fácil da estranheza e da polêmica pela via da perversão. Escolhe personagens e situações a dedo para uma espécie de crítica social de uma classe média que sugere ser geral, mas se fundamenta especialmente no seu próprio país. Isso lhe parece ser o suficiente, ou melhor, entende ter carta branca para poder impor olhar preconceituoso e pouco sutil, já que está falando dos seus. A ideia de contraste também é significativa quando no primeiro filme uma austríaca de meia idade, mãe, vai passar as férias num resort da África e conhece muito mais que a gentileza dos nativos. No seguinte, uma carola que sai pregando as palavras da bíblia recebe em casa um antigo companheiro, islâmico radical. Por fim, temos agora adolescentes internados num SPA para emagrecer, vítimas de um instrutor sádico, mas também de um médico pedófilo. Faltava, parece dizer Seidl, essa questão obscura do comportamento humano para fechar seu parecer do mundo. Falta, para os espectadores, mais inteligência e vigor crítico que o diretor até pincelou melhor em trabalhos anteriores com Import/Export.
Não é do tema das perversões, mas ainda sim um tabu, de que trata In the Name of, em nome de, o concorrente polonês exibido de manhã. A falta de sutileza da diretora Malgoska Szumowska também é de outra ordem, para usar uma expressão a calhar. Mas o filme tem bem mais a oferecer e eu embarquei na contrição do padre Adam, que põe a prova sua vocação e preferência sexual, não pela jovem Ewa do vilarejo onde cuida de garotos rebeldes em reabilitação, mas sim de um garoto um tanto disfuncional da vizinhança. Pena que a diretora estique demais a condução do encantamento entre ambos e se perca em vários finais, talvez não tendo escolhido o melhor.
E, afinal, Gus Van Sant. Seu Promised Land, para mim, ficou na promessa. Não vi a identidade do diretor ali, exceto por fazer seu habitual recorte da sociedade americana por algum atalho alternativo. Lembram-se do recente Inquietos¿ O casal de jovenzinhos desconectados com o mundo, vivendo uma realidade própria, pode não ter rendido um grande filme, mas dava o recado dos isolados de uma geração obcecada pelas redes sociais. Agora a tentativa de fazer um filme de mensagem sobre as conotações negativas do mundo globalizado e seu impacto num vilarejo esquecido do interior americano soa fraca, banal. Não sei se pela presença de Matt Damon como o jovem recém contratado de uma poderosa exploradora de gás que vai convencer fazendeiros a se associar na empreitada me deu a impressão de um filme mais ligado a Steven Soderbergh e suas denúncias sensacionalistas simplórias, ou mesmo o engajado George Clooney, que por certo faria trabalho melhor. Fica apenas a ideia de um filme simpático, com Frances McDormand sempre com a verve irônica em dia, e não mais. Esperemos que a Berlinale siga para melhor!

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