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Aos mucuripes

por Orlando Margarido — publicado 08/06/2012 21h41, última modificação 08/06/2012 21h41

Fortaleza – Programação intensa aqui no CineCeará, embora esperasse um cotidiano mais tranqüilo do que em Cannes. Claro que o festival francês nos exige mais, mas aqui se leva algum tempo com debates com os realizadores de curtas e longas-metragens, que por vezes se alongam mais do que o necessário. Também deslocamentos até o Teatro José de Alencar e eventuais encontros paralelos, como o debate curioso com Fernando Meirelles na Assembléia Legislativa (no plenário!) sobre os dez anos de Cidade de Deus. Por questão de horas ele não encontrou o filho Quico, que integra a competição com o curta A Galinha que Burlou o Sistema, que já havia visto no É Tudo Verdade. O curta foi muito debatido a pouco no grupo do qual participei para o premio do Canal Brasil, já tradicional nos maiores festivais do país. Não posso adiantar a escolha, claro, mas só digo que fui voto vencido. Faz parte do jogo. Mas enfim, tudo isto para dizer que junto com o material que preparei para a edição nas bancas de CartaCapital fiquei ausente do blog. Por isso recupero a programação competitiva em tópicos, a poucas horas da premiação logo mais.

Rânia – Achei uma bela surpresa esta estréia na ficção de Roberta Marques, depois de alguns curtas e um documentário, diretora de origem cearense mas baseada também na Holanda. Talvez por isso mesmo, por ter um pé aqui e no exterior, a história da jovem do título que se afirma na dança para tentar uma mudança de vida em viagem a Nova York faça igualmente um sentido pessoal. Rânia (a estreante Graziela Felix) integra uma família pobre de Fortaleza, mãe costureira, o pai pescador, já separados. Quando uma professora de dança contemporânea volta a cidade e monta uma escola, a garota lapida o talento, ao mesmo tempo que uma amiga dançarina de um inferninho a leva para lá ganhar algum dinheiro. Quem fizer a associação com O Céu de Sueli, do também cearense Karim Ainouz, não estará errado, na história da jovem que rifa seu corpo. Há pontos de contato, sem dúvida, mas Roberta procura se distanciar da comparação. Prefere, isso sim, aproximar-se de Terra Estrangeira, de Walter Salles, conforme disse no debate sobre seu filme. Especialmente, estão lá a imagem simbólica de um navio encalhado e enferrujado e a questão da identidade, que é o que Rânia procura construir aqui. Um bom filme, que de início me parecia uma surpreendente incursão do cinema cearense, mas há que se levar em conta seu conhecimento adquirido nas experiências fora do país. Deve sair com algum prêmio logo mais.

Data de Vencimento – Do cinema mexicano não se espera outro tratamento para o tema da morte que não a irreverência e o humor negro. Há isso e muito mais nesse trabalho bem interessante de Kenya Márquez, que confirmou na conversa que acontece por aqui todas as manhãs com os realizadores, a maneira peculiar como seu povo lida com a questão. Mesmo quem não se afine com a boa dose surreal do filme, pode se interessar pelo drama da mãe já idosa (a grande estrela local Ana Ofelia Murguía) que busca pelo filho desaparecido. Diga-se, um adulto muito paparicado. No necrotério, onde tenta reconhecer os cadáveres, ela conhece uma atendente e um tipo malandro (o ótimo Damián Alcázar) que busca lucrar com quem chega ali. Cai praticamente em suas mãos uma cabeça, sim, separada do corpo, que ajudará a esclarecer o fato. Ao mesmo tempo, uma jovem ligada ao desaparecido surgirá na vida da velha senhora e fechará o ciclo ao se deparar com a moça. Há, claro, sugestões do cinema de Luis Buñuel, que não por acaso trabalhou longa fase no México, mas a originalidade parece genuína, muito ajudada pela ótima fotografia e direção de arte.

Juan dos Mortos – Não vou esconder que os filmes de zumbis não são lá muito meu gênero, mas me divirto com Romero e seus seguidores. Da mesma forma, levei no humor, afinal o tom aqui, desta versão cubana que transforma o país numa arena de embates entre os mortos-vivos e três moradores, digamos, ainda humanos de Havana. Como é de se esperar com a originalidade desse povo para sobreviver, eles montam uma espécie de empresa exterminadora de zumbis. Sem dúvida o filme expressa uma alegoria das mudanças na Cuba atual e quem enveredar por esse aspecto terá um prato cheio. No mais, um filme um tanto tosco e pouco ambicioso.

Um Amor – O concorrente argentino lança mão do antigo recurso do triângulo amoroso para mostrar em dois tempos a história de dois amigos de infância que se apaixonam pela mesma garota liberal, quando esta se muda para uma cidadezinha nos anos 70. Na atualidade, a jovem mora no exterior e volta para reencontrar os companheiros, um escritor e roteirista de TV bem sucedido em Buenos Aires, o outro herdeiro da oficina onde sempre trabalhou no interior. O momento do passado me pareceu mais cativante que o atual e, sem muito risco, apenas contando de forma tradicional sua trama, a diretora mantém-se numa zona confortável, longe do risco de seu longa anterior, Chuva. Bonito o reencontro dos três, mas no geral não vi maiores qualidades, embora muitos colegas tenham gostado. Pode ser um prêmio de consenso. Para não mais do que isto.

Bertsolari – Foi intenso o debate sobre este documentário espanhol, ou mais correto dizer, basco. A condição reforça na verdade o aspecto no qual o filme empaca. Discutiu-se muito o tema e não propriamente o trabalho do diretor Asier Altuna. E que tema é este? Os bertsolari são cantadores tradicionais do País Basco, ou Vasco para nós, que se apresentam em melodias formadas pelos bertsos, o que em bom português seriam versos. Improvisam esses versos, em canções curtas, tal qual nossos repentistas. Que ainda contenha suas peculiaridades, não é tanta diferença assim da improvisação que acontece aqui ou na Galícia, como foi lembrado. Daí a impressão de um filme que se constrói como peça de afirmação política e cultura de um povo que, como se sabe, tem esse sonho da independência em relação a Espanha. É bem feito, caprichado, mas dado o recado logo no início, torna-se recorrente, tendo como clímax um festival entre competidores bertsos. O diretor teve a sorte de flagrar no ano de filmagem a vitória de uma mulher, raro no meio, frente a um vitorioso cantador já de alguns anos.

Em Nome da Filha – Um raro representante equatoriano, o longa bebe na fonte de filmes de língua espanhola com elenco infantil, como Cria Cuervos, O Espírito da Colméia e, mais recentemente, O Labirinto de um Fauno. Mas sem o alcance crítico e político desses, se afirma na ingenuidade de um grupo de crianças que nos anos 70 passa as férias na casa dos avós proprietários de terras. A líder, mais velha, tem visão política formada graças aos pais engajados, e passa ao confronto com os demais sobre temas como a exploração e o trato com os empregados da casa. Soa um tanto artificial esse recurso de jogar um discurso conscientizado para a garota, ou mesmo para alguns outros da turma, e o filme só tem um momento mais interessante quando ela encontra um tio louco mantido escondido. Narrativa clássica, importante talvez para o país refletir, se houver pulsão no filme para tanto, sobre seu período de ditadura.

Febre do Rato – Enfim, o último longa de competição exibido ontem à noite, em sala lotada, e sem debandada, o que foi boa surpresa. Já havia visto o filme de Cláudio Assis em Paulínia, no ano passado, no qual recebeu prêmios importantes. Aqui, o longa me pareceu um tanto deslocado da concepção geral da seleção, e isso pode contar pontos a favor para levar algum Troféu Mucuripe, ou justamente o inverso, ser enterrado para evitar polêmicas. Digo isso porque ouvi dos colegas jornalistas hispano-americanos aqui presentes uma certa dificuldade em “entrar” no filme, em muito pela má qualidade das legendas em espanhol. E isso é sério, como chegou a ser discutido no debate, pois estamos falando de uma obra sobre poesia, com longos momentos de pura declamação, reflexão e pensamentos. Rebati mesmo assim que a dificuldade pode não ser só deles, mas nossa também, pois Assis nos impõe um desafio, que para mim aceitei e gostei de imediato. Em um tom libertário, anárquico como é a personalidade do protagonista, o poeta Zizo (Irandhir Santos), o filme em preto-e-branco investe fundo na celebração da vida sem amarras, seja nas paixões daquilo que se quer fazer – Zizo busca editar uma publicação marginal a qualquer custo – seja no sexo mais plural e aberto. Quem se lembra da curra da personagem de Dira Paes em Baixio das Bestas, nem deverá se incomodar com os nus freqüentes, a cama lotada de homens e mulheres, masturbações e uma sedução numa banheira ao ar livre que antes de ser impactante chega a ser hilária. Ainda sim, pode-se dizer que Assis depura um tanto aqui seu cinema de excessos, e finalmente, traz algo de renovador numa produção careta que aí está, como se conversou muito hoje no debate. Daqui a pouco saberemos se o júri banca tal contestação. Até.

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